A eterna procura por um lugar no universo [conto]

Imagem | Antimidia

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Aquele era o futuro onde os carros voavam e os adolescentes iam visitar a estação lunar com a escola todo o ano. A publicidade tinha chegado a lugares jamais imaginados. De telões gigantes nas ruas as membranas de plasma, tudo estava sendo anunciado, vendido e comprado. Nesta grande e iluminada roda gigante Willian comprava e vendia sementes, num mercado negro onde a primeira regra era continuar vivo para o próximo negócio. Ele tinha voltado do antigo Congo com um punhado de sementes de chá, e queria se desfazer delas o mais rápido possível.

Não existia lugar melhor na galáxia para negociar este tipo de produto que o Palomino. Um bar onde plantadores clandestinos se reunião para decidir quem, o que e aonde se plantaria qualquer coisa. E eles andavam em carruagens voadoras, usavam chapéus e cintos com fivelas que pareciam botões perto de suas barrigas. Will se aproximou de um deles, o Coronel Bill. “Tenho sementes de tantos chás diferentes que você vai precisar de uma fabrica de latas para plantar todas elas.” “Me encontre no estacionamento.” Ele saiu do bar e desapareceu, e alguns minutos depois o holograma do Coronel Bill também sumiu.

Ambos reapareceram num antigo hangar no extremo da cidade. O lugar era frequentado por todo tipo de gente que quer comprar coisas que não estão a venda nos mercados tradicionais. Hologramas iam e vinham como se fossem uma massa de carne ambulante, desviando uns dos outros. “Me diga, porque eu não deveria apenas ir até a caixa de estrume onde você se esconde, pegar o que é meu e matar você?”, disse o velho Bill. “Primeiro porque você não sabe onde esta a caixa de merda, depois porque quem iria conseguir sementes para você?” “Cadê elas?” Ele tirou elas de uma sacolinha de veludo e mostrou para ele. “São sementes não marcadas do antigo Congo. Originais. Sem modificação genética de nenhum tipo. Dizem que podem até mesmo gerar novas sementes germináveis.” “E como você pode garantir isso?” “Eu mesmo andeis pelas matas mais densas e sujas de lá para ter certeza disso.”

O alto lucro do mercado negro de sementes parecia justo quando se pensava que para se ir e voltar do Congo misturado a marinheiros de um navio cargueiro se levava quatro meses. Lá a civilização tinha se reduzido há alguns hotéis na beira do cais e avançar selva a dentro era praticamente certeza de morte. Havia alguns problemas legais também.

As sementes tinham sido proibidas porque ninguém mais tinha permissão para plantar. A superpopulação tornou terra tão preciosa quanto água. Também não podia se desperdiçar dela em plantações. Foram desenvolvidas sementes sintéticas, que eram plantadas em gosmas de proteína para gerar grãos sintéticos de proteína e carboidrato, no sabor desejado. E esta era toda a base alimentar do ocidente. Estas eram as sementes marcadas. Era possível até comprar sementes de flores de plástico. Somente sementes marcadas podiam ser comercializadas e ainda assim em cotas. Como consequência também existia um mercado negro próspero e cruel de alimentos, e o futuro de quem fosse pego com um tomate não era diferente do de um assassino, mas ainda assim não era pior do que ser preso com semente. Isso porque a idéia é a de que ela que da inicio a uma cadeia de crimes, sendo assim maior responsável.

Conseguir terra era tão difícil quanto conseguir sementes, e portar sementes não marcadas, que tinham grande chances de ser 100% naturais, era um crime que poderia levar qualquer um facilmente para as prisões de congelamento em gás hidrogênio nas galáxias mais longínquas que se pode imaginar. “Quero cem mil créditos no meu cartão em duas horas.” Pediu Willian. “Ou você vai fazer o que? Plantar elas? Setenta mil créditos planetários e trinta mil créditos terrenos. Isso ou a morte.” “Não é justo, mas é melhor que a morte. Meia hora depois que o crédito for transferido você receberá uma mensagem com a localização das sementes.” Os dois sumiram.

Willian ligou um de seus Andróides e colocou o saquinho de sementes num compartimento perto da junta do tornozelo. Depois programou ele para ir até um ferro velho, dois quilômetros distantes dali andando pela rede de esgoto, e se recolher dentro de uma carro até ser acionado novamente. Duas horas depois ele recebeu a confirmação dos créditos. Então enviou a mensagem com a localização do Andróide. Em pouco tempo recebeu um sinal de que a carga havia sido removida. Com a negociação concluída ele ativou o robô para que ele voltasse para casa.

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