Crise psicológica permanente [conto]

Quando se tem vinte e poucos anos ver o sol nascer, bêbado e chapado na rua em plena segunda-feira, significa: “eu sou feliz e você não.” Porque o mundo inteiro pode ser dividido em dois: aqueles que são felizes e demonstram isso e aqueles que são rancorosos e enchem o saco. E o Pancada não parava de falar. “Você já imaginou o que ia ser da Gilette se todos os homens do mundo decidissem: nunca mais vamos fazer a barba! Ainda iam ter as mulheres. Verdade. Com certeza iam ter as mulheres.” A mescalina transforma meu cérebro num labirinto, aí fico dando voltas e voltas e mais voltas sem sair do lugar. Tenho medo que o garçom venha me perguntar alguma coisa. Tenho medo que alguém faça algum tipo de contato. “Mas elas usam outras técnicas. Gilette não deixa a perna lisinha.” Isso tudo vai terminar em lugar nenhum.

As vezes parece que meu estômago vai implodir. Estou prestes a começar a me contrair como o Joe Cocker no Woodstock. Igual um rato agonizando depois de comer chumbinho com queijo. Não consigo olhar para ninguém, mas eles tem outras preocupações. A Eliza e o Pedrada estão se pegando com as pernas embaixo da mesa. Não vejo o Demente já faz um tempo e o Pancada continua achando que está falando comigo. “O mundo não precisa de sacolas de plástico. Você já reparou que te dão cada vez mais disso no supermercado? Tem alguma coisa errada com isso. Junto milhares delas e faço uma fogueira nos fundos de casa. Assim todo planeta vai ter que compartilhar esta merda comigo.” Porque o mundo pode ser separado entre os que se importam e fazem alguma coisa e os que se importam e não fazem nada. Os parasitas. Estão me consumindo por dentro.

Todos aqui são escolhidos e especiais. Estão todos aqui vivendo o sonho. Cheios de histórias legais e engraçadas para contar. Vidas emocionantes que justificam todo orgulho que os pais tem dos filhos. Que no fim eles nem conhecem. Chegou a Perfeita com o Vítor. Eles fingem que não me vêem e eu finjo que não existo. Na mesa do lado estão falando sobre vegetarianismo, e o Pancada continua achando que estou escutando. “Comer folha é um claro sinal de inferioridade. Éguas comem folhas, jumentos comem folhas, vacas comem folhas, hienas comem folhas. Apenas substantivos depreciativos comem folhas. Malditos ruminantes!” Quem cresceu vendo a Carla Perez dizer “i de iscola” na televisão não deve ser muito mais que isso. Divido o mundo entre eu e o resto. E o resto não tem a menor idéia de quanto eu quero sumir.

O Senhor, com toda sua sabedoria, me fez assim, alcoólatra e viciado, o que ele faria comigo se eu o contrariasse? Foi Ele quem me deu o diploma de direito. Foi Ele quem me deu meu escritório num prédio de vidro. Foi Ele que acabou com todas as minhas esperanças. Devia ter cheirado o mesmo que o Pancada. Talvez ele saiba que não estou dando a mínima, talvez não. Não me lembro bem como chegamos a este ponto. Agora que perdi o fio da meada não sei como voltar. “Entende o que quero dizer. Se não houvesse violência ninguém ia precisar de banco ou cartão de crédito. Não ia precisar nem ter polícia. Por isso eles tem que manter alguns ladrões na rua. Para equilibrar o sistema.” Sobraram só dois grupos, aqueles que estão dentro e os que estão fora e querem entrar desesperadamente.

Agora estava todo mundo sentado na mesa. A Eliza e o Pedrada, a Perfeita com o Vítor, o Pancada, o Demente e eu. Não mudava muita coisa para mim, mas para o Pancada era uma platéia pronta para debater sobre tudo que não importa. “Você sabe quanto os supermercados e bancos ganham com os centavos que eles embolsam dos trocos? E ainda descontam do caixa qualquer diferença!” Isso me lembra a mocinha bonita do caixa do mercado esta na sua casa dormindo esta hora, que me faz pensar que ela deve ter um namorado, projetos, sentimentos. Que me lembra que nunca vou ter mulher, filhos e família. Que esfrega na minha cara que sou um fracassado. Vamos embora, finalmente, não sei para onde.

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