Quem não aposta não ganha [conto]

AntimidiaBlog - Quem não joga não ganhaAquele dia tinha tudo para dar errado. Devia ter percebido logo que acordei. Qualquer movimento que fazia provocava uma onda de dor que se espelhava na velocidade da luz e parecia que ia explodir na minha cabeça. O Senhor, com toda sua sabedoria, me fez assim, alcoólatra e viciado em cocaína, o que ele faria comigo se eu o contrariasse? Não sabia onde estava nem quem era a garota do meu lado. Tentei não fazer muito barulho, mas não foi fácil me equilibrar para colocar a calça e acabei caindo em cima do criado mudo. Ela acordou e me ofereceu um café. Respondi que tinha sido uma noite inesquecível e fui embora. Não foi bem assim, mas era tudo que ela queria escutar para me deixar sair sem perguntas. Passei por um brechó, comprei um terno e uma gravata. De lá, já trajado, fui direto para o Bar do Jaime ver se arrumava alguma coisa. Precisava de algum dinheiro para pagar pensão.

Dominó, cacheta, pôquer, bilhar, alguém sempre estava jogando alguma coisa. Dava para perder dinheiro em cavalos, (grandes) lutas de boxe clandestina, queda de braço e qualquer coisa que se quisesse apostar. Peguei bebida, fichas e comecei a transitar. O baralho com certeza era a opção mais lucrativa. Procurei uma mesa com bastante copos. Os bêbados reparam menos nos ladrões e nas cartas. Sentei com o Reco Reco, o Reboco, a Ranca Rabo e não sei quem era o outro velhote. “Estou esperto com você seu larápio de merda.” O velho me conhecia de outros carnavais, que não lembro de ter pulado. Sempre fui honesto com quem merecia. “Nós todos estamos”, completou a senhorita que distribuía as cartas e ficava com 2% do pote. Preciso de um par de ases para ganhar algum dinheiro, para ela basta usar os peitos. “Amigos, tudo que sei aprendi com vocês.” Tinha a meu favor simpatia e confiança.

Mão vem, mão vai, e quando não estava empatando estava perdendo. A coisa não engrenava. Fui recuperar parte das perdas na roleta. Trinta por cento no branco e all in no preto. Vamos lá Wesley Snipes, quebra essa………ganhei! Embarquei num grupo de Black Jack. As cartas giram mais rápido, o jogo é dinâmico. Quando se da por si as fichas que se tem no bolso não pagam as bebidas que estão na cabeça e o pó do nariz. Era hora de colocar os anos de faculdade na mesa. Fui para o bilhar. Ninguém apostaria que um bêbado é capaz de jogar tanto. Foram duas faculdade de humanas, e ainda me diziam que elas não iam valer de nada. Preciso de dinheiro de verdade. Voltei para o pôquer cambaleante e desesperado por um passaporte para o paraíso. Na sinuca eles tomam muita cerveja, a galera do baralho preferia whisky. Eu já estava todo embaralhado. Não sabia mais o que era ouro e o que era copas.

Estava perto de dar a cartada final quando um grito de “ladrão!” cruzou o salão. Todo mundo olhou para o lado. Enfiei a mão nas fichas do Reboco e do velhote e dei um bicudo na mesa. Cai no chão e escutei o barulho de um tiro. Depois veio o corre corre. No meio do tumulto recolhi mais algumas fichas que estavam espalhadas. Olhei para o balcão e vi o Jaime empunhando uma doze punheteira e atirando a esmo. Ia me arrastando na direção da parede quando fui interrompido pela bota de couro de cobra do velho atingindo violentamente meu estômago. “Me devolve meu dinheiro filho da puta!” Uma bala guiada por Deus acertou ele pelas costas.

Consegui chegar até o banheiro, me tranquei numa cabine e fiquei esperando a confusão acabar. No fim era como se um liquidificador gigante tivesse batido todo o bar. O Jaime tinha levado um tiro no braço e não se cansava de amassar a cara do bastardo que disparou a bala. Nem com a polícia lá, recolhendo os corpos, ele parou de bater no infeliz. Procurei o velhote entre os sobreviventes, mas nada dele. Não gostava muito daquele cretino, uma vez ouvi dizer que ele pegou a mulher com seu irmão e matou os dois na porrada. Puxou cana e tudo mais, mas não sei se ele merecia morrer. Sobrou um tiro no peito do Reco Reco, e ele estava estrebuchando a caminho do hospital. Começou o movimento de limpeza do salão e reorganização das mesas. Fui para o caixa, troquei minhas fichas e sai sem ser percebido.

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