Vivendo a emoção de cada dia [conto]

Quebra Coco acordou era pouco mais de duas da tarde. Quando abriu o olho viu que estava encostado numa parede verde musgo toda mofada usando o casaco como travesseiro. Tinha dois ou três corpos esparramados no mesmo ambiente. Uma casa abandonada no extremo da zona oeste. Ele levantou, juntou as coisas, e saiu um pouco ressabiado. Deu uma olhada pela esquina na procura de alguma tocaia, mas concluiu que estava tudo limpo. Pegou um ônibus sentido zona sul e foi para casa torcendo para que nada nem ninguém envolvido na noite passada cruzasse seu caminho. Quando entrou Lucélia estava sentada no sofá vendo televisão, bebendo e fumando um cigarro.

– Onde você estava? Já estava me preparando para ligar no necrotério.

– A noite ontem foi complicada, tive que ficar num esconderijo até agora para a poeira baixar e eu conseguir circular. Não sabia se tinha sido reconhecido. – Ele tirou um maço do dinheiro e jogou na mesa. – Tem aí para você pagar o aluguel e ainda ficar com um pouco.

– Só isso? Vale tanto risco só por isso?

– Foi um pouco mais, mas tive que pagar umas dívidas. Esta noite vai ser melhor. O Remela tá mirando um negócio aí que da para tirar o pé da lama.

– É sempre assim. O Zé tem o plano perfeito, o Fulano esta programando uma coisa grande, você está sentindo que vai acontecer, e no fim você passa a noite fazendo sequestro relâmpago e pegando migalhas!

– Ei! Não estou nessa por estas migalhas! Você sabe disso. Preciso só de tempo para encaixar o grande assalto. Estamos todos trabalhando nisso, mas não é fácil. Já conversamos disso. Seguranças, alarmes, cofres……precisa de investimento, inteligência…………..enquanto isso precisamos viver e eu vou fazendo uns bicos.

– Estes bicos são o problema…….há anos você esta fazendo estes bicos e aonde chegamos? Você está com sangue na camiseta. Eu tenho medo………tenho medo de saber de quem é….tenho medo de perder você………….

– Por isso temos que aproveitar ao máximo todo tempo que temos juntos. Cadê a pequena?

– Comeu e agora esta dormindo. Deixa ela em paz um pouco.

– Vou no supermercado e quero levar ela comigo. Não tem nada para comer nesta casa. Antes vou tomar um banho e fumar um relaxante, depois acordo ela.

Enquanto ele estava no banheiro a pequena Caroline acordou. Logo que percebeu que o pai estava em casa foi correndo para o quarto dele ver se ele tinha trazido algum presente. A animação dela ao ver Quebra Coco era contagiante. Mal ele abriu a porta do banheiro chapado ela pulou no colo dele gritando. Ele jogou ela em cima da cama e ficou fazendo tantas cocegas que ela ria tão alto que parecia que o quarteirão todo podia escutar. Lucélia via tudo da sala e agradecia a Deus por ter uma família tão feliz. Daquele ângulo parecia tudo quase perfeito. “É tão bonito ver eles juntos”, ela pensou enquanto os dois iam cantando para o supermercado.

– Posso pegar um chocolate?

– Pode…….não, não precisa colocar dentro do shorts…….vamos pagar.

– Mas a gente não é ladrão?

– É, mas lembra que eu disse que tem que ter ética, nós não queremos ser pegos. Tem que roubar de quem está pedindo para ser roubado.

– A gente só rouba de quem tem tanto dinheiro que pode roubar, né?

– Isso mesmo. Nada de roubar velhinhas, lojas de conveniência ou doces no supermercado. A gente não precisa disso. Somos decentes.

– Papai, a Vovó disse pra mamãe que você é um ladrão filho da puta. O que é um filho da puta?

– Resumidamente, tudo que sai de dentro da sua Vó.

– O que sai de dentro da Vovó?

– Nunca te contaram como as pessoas nascem? Viu o que quero dizer quando falo que sua mãe não te ensina nada de útil? Já tem cinco anos e não sabe como as pessoas nascem? O que você faz na escola?

– Converso com meus amigos, corro da professora, durmo, como macarrão…

– Não ensinam nem o que não precisa na escola hoje em dia. Aqueles filhos da puta estão enganando todos nós com este papo de educação!

– Eles saíram de dentro da Vovó?

– Não! Mas são tão chatos quanto ela.

Pai e filha voltaram para casa. Lucélia continuava envolta no losango sofá, televisão, cerveja e tabaco. Era um sofá velho, rasgado, azul desbotado de uma promoção de loja de crediário. A TV era nova, com tela de plasma, que o marido trouxe de ela prefere não saber. A cerveja era barata, e ela não tinha a menor preocupação em bater cinza em algum lugar que não fosse o chão. O Quebra Coco guardou as compras enquanto a pequenina foi mostrar o chocolate para a mãe, que passou a mão na sua cabeça e sorriu com uma alegria falsa. Ele saiu da cozinha com uma cerveja na mão e sentou do lado da esposa.

– Você não obrigou a menina a roubar este chocolate, né, seu filho da puta? Olha lá o que você esta ensinando para ela.

– Ei! A criança nem sabe como os bebes nascem e você esta me falando que eu estou ensinando coisa errada para ela? Presta atenção!

– Pai, quer chocolate?

– Não. Fica assistindo televisão quietinha que eu e a sua mãe precisamos conversar no quarto.

– Agora não………não estou me sentindo bem. Também não quero que ela fique escutando os barulhos ou pegue a gente de novo. A hora que você voltar a gente conversa.

– O que é isso meu bem? Você sabe como é esta vida, não é? Sabe-se lá o que pode acontecer. Não quer perder esta chance. Você quer? Hen, hen….

– Você bem que podia tentar arrumar um trabalho honesto pra gente poder pensar melhor no futuro. Não aguento mais viver assim, sem saber se você volta para casa ou não. Tenho medo que você já tenha matado alguém.

– Não fica pensando nestas coisas. Se eu trabalhasse ia ter menos tempo para ficar em casa, só com você….

Protestos a parte os dois acabaram transando no quarto. O primeiro fruto deste amor não interrompeu nada, acabou dormindo no sofá velho da sala assistindo televisão e se esbaldando com uma barra de chocolate. Os pombinhos adormeceram depois de uma quente trepada. Quebra Coco acordou e se preparou para sair pisando em ovos, para não acordar nenhuma das duas. Pegou mais uma lata de cerveja, colocou o trinta e oito no bolso do casaco e foi trabalhar perto da meia noite.

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