Roqui e Muguissi em: ratos sujos [conto]

Acordei com a cabeça latejando. Meu cérebro pulsava. Devia ter ido a um hospital. Devia ter feito isso há uns dez anos. Não passei do sofá da sala. Estacionei lá até o telefone tocar pouco antes do meio dia. “Tenho outro trabalho para você!” Antigamente as pessoas falavam “alô” ou “bom dia”. Nos dias de hoje educação é coisa de quem tem tempo para perder. “E o que você vai querer em troca?” Com essa gente você tem que ser claro e objetivo. “Sua alma e seu sangue por cem pratas.” “Vendido.” “Esteja no meu escritório a meia noite para falarmos dos detalhes.” Desliguei o telefone. Diante de uma madrugada inteira de trabalho resolvi tirar um cochilo. Os comprimidos não foram o suficiente para amenizar alguns dos carmas que me perseguiam a anos.

Voltei a realidade com os mesmos problemas e os mesmos dilemas: “O que é a vida? Da onde vim? Para ondem vou?” Me mantive focado em sobreviver mais um dia. No caminho do escritório encontrei um dos meus companheiros. “Você sabe do que se trata?” Perguntei. “Não, mas não acho quem dê mais de cem pratas pelo meu couro e minha vida.” “Acho que no seu caso ele esta pagando caro.” “Ele chamou o Catraca e o Quebra Nozes também.” “Que merda. Deve ser trabalho pesado.” Era uma empresa de escavação, do tipo das que só trabalham de madrugada com funcionários não registrados que recebem em dinheiro vivo. Não tinha nada de arqueológico, a gente nunca achou nada, sempre escondia ou mudava de lugar. Outro dia tivemos que abrir uma grande vala para desovar milhares de pintinhos mortos de sei lá o que. Um pouco triste aquele genocídio aviário, mas por cem pratas tinha até matado todos aqueles pintinhos.

Estávamos do lado de fora da lata de sardinha gigante, num terreno grande. Tinha uma meia duzia de tratores já, mas as pás já estavam lá a nossa espera. Nossa equipe trabalha com ferramentas rudimentares para realizar intervenções cirúrgicas. Éramos quinze bastardos aglomerados torcendo para um terremoto interromper o serviço. Começaram a chegar uns caminhões, que formaram um círculo iluminando a área. O grande filha da puta saiu da casinha. “Ok pessoal. São cinco caminhões. Quero todos eles cheios com uns latões que estão enterrados bem aqui debaixo deste chão. Vamos trabalhar.” Começamos a cavar. Menos de três palmos e os latões azuis começaram a aparecer. Quando tirei o primeiro vi que tinham uma faixa amarela com uma caveira pintada no meio. “São estes mesmos. Vamos que eles precisam estar fora deste Estado antes do sol nascer.” Alguns pareciam estar mais vazios que outros. Uns tinham alguma gosma líquida. Todos fediam a banheiro de supermercado.

Começou a chover e a lama tornou o trabalho uma merda de um chiqueiro. Os barris escorregavam na mão e era difícil conter a terra que vinha com a água. “Não vai dar, precisa de mais braço porra!”, gritei com lama descendo pela minha garganta. O desgraçado olhou para gente e viu que não era questão de chicote. Ele passou a mão no telefone e convocou a cavalaria. Em pouco mais de meia hora as garras de aço estavam lá cavando trincheiras. Neste meio tempo o Quebra Nozes arrumou um pó branco mágico, jurando que a coisa ia ficar mamão com açúcar depois de um tiro. Era do estoque pessoal do chefe, da boa. A chuva continuava molhando e a lama enlameando, mas o braço aguentava mais e trabalhava mais rápido. A luva estava atrapalhando, entrava água dentro e os dedos escorregavam. Arranquei elas mandei para as pilhas de terra. Depois de um tempo as botas tiveram o mesmo destino. O cálculo estava errado, foram só quatro carretas.

Apareceram três caminhões com terra. Alguém viu o desgraçado pagando o dobro para os motoristas. “Estes caras só fazem o leva e trás e ganham duzentos mangos. Isso está errado!” Era justo, mas a única coisa que a justiça fez pelo catraca foi mandar ele para o celeiro por cinco anos. Mesmo assim recebemos só as cem pratas. O filho da puta vinha pagando um por um e falando. “Voltem para casa e tomem um banho com suco de laranja antes de dormir. Se sentirem algum tipo de dor tomem estes remédios.” Ele também deu uma cartela de comprimidos para cada um. “Se não funcionar morram em casa, não vão para hospitais e muito menos falem sobre os tambores.” Fechamos os buracos, pegamos a grana e fomos embora.

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