Diário de bordo do capitão cérebro frito [conto]

Pedro Pedrada

[12/07/1997 – 16:34]

Se símbolo da inteligência é o caracol o Prego estava personificando a inteligência do mundo jogado num canto enrolado em si mesmo todo molhado. Estou sentado neste colchão há não sei quanto tempo. Detrás do balcão da cozinha o Pelé preparava mais uma dose de chá. O cheiro foi tomando conta da sala. A chaleira avisava que o trem paranóia delirante estava chegando. Meu estômago estava entrando em ebulição. Do outro lado a Nat começou a vomitar antes mesmo de sentir qualquer coisa. Alguém gritou num tom de desespero. Via tudo ao mesmo tempo e não reagia a nenhum estimulo. Parecia que era possível transgredir a barreira do tempo e ver tudo só no fim. Fechei os olhos.

[12/07/1997 – 20:07]

O que pode ser mais importante que o conhecimento? Em algum momento a Nat começou a ler uma lista telefônica que surgiu do nada. Mas com o livro de ponta-cabeça. Nem Deus sabe o que ela está vendo ali naquelas linhas. Era a mais pura epistemologia da maior lista de contatos do mundo. Será que estou de olho aberto? Tem mais gente aqui. O barulho aumenta, é agudo, um zunido ininterrupto vindo não sei da onde. A Mariana esta conversando com alguém sentada na mesa. Estão apontando para mim. Não sei quem está com ela. Será que ela sabe que está com alguém? Estou caindo.

[12/07/1997 – 23:48]

Acho que uma parte de mim derreteu no colchão. Talvez não tenha mais rim, ou tenha me transformado num caracol. Nada que Murphy não tivesse previsto. A Nat e o Edgard estão abraçado encolhidos no sofá. Parece que eles querem se esconder. O Pelé desmaiou estatelado em cima da mesa. Alguma coisa estava escorrendo no braço dele e pingando no chão. Parecia borracha de seringueira. Definitivamente estou com os olhos abertos, esbugalhados. Do outro lado da sala o Prego tentava falar alguma coisa. A boca dele se mexia, mas ou o som não saia dela ou não entrava nos meus ouvidos.

[13/07/1997 – 01:30]

As cores estão mudando de lugar. A Nat esta azul e o sofá tem listras como uma zebra. Pode até ser que ele seja uma zebra. Não sei direito quem sou eu, o sofá ou a zebra. Tenho certeza que estou sendo sugado por um buraco negro que brotou no meio deste colchão. Vendo a Mariana babando uma gosma verde na frente da televisão. Foucault com certeza não via o mundo assim. Não existe nenhuma ordem vigente aqui. A prova final desta teoria é o Prego nadando em uma piscina em cima da mesa. Pelo movimento de braços e pernas ele parece ser bom.

[13/07/1997 – 03:52]

Minhas interpretações do mundo estão ficando mais claras. As cores voltaram para os lugares delas. A voz que saia do liquidificador dizia que tudo ia acabar bem. Bastava tomar o comprimido que o Tom-Tom estava me oferecendo. Estiquei o braço cortando o ar e coloquei a pilula para dentro. Ela escorregou pela minha garganta e se alojou no meu estômago. Depois começou a se desintegrar e aquela poeira amarela entrou no meu sangue. Então veio lá do fundo aquela sensação de prazer que bateu na cabeça e uma flor nasceu no meu coração. Entrei dentro de mim para ver o que estava acontecendo lá.

[13/07/1997 – 07:38]

Alguém ligou o sol, e o som dos passarinhos, e os galos, e as flores. Elas estavam por todos os lados. Tinha um mico-leão-dourado pipocando pela sala guiando minha visão. O Pelé estava correndo freneticamente atrás dele. O Prego parecia um bujão de gás vermelho estacionado atrás da mesa. A porta estava aberta e uma multidão fantasiada de super-heróis passava por ela a cada segundo. Do lado de fora da janela dava para ver todo o mundo. Tinha uma bailarina balançando numa cadeirinha pendurada numa nuvem de algodão doce. O mundo todo fazia sentido agora. As borboletas azuis eram na verdade gaviões disfarçados vigiando o paraíso.

*Conto publicado originalmente no Portal Cannabica | http://www.cannabica.com.br

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