Acompanhante – Chuck Palahniuk [tradução]

Chuck Palahniuk (Alex Ran - CC)

Chuck Palahniuk (Alex Ran – CC)

Escort | Chuck Palahniuk para a Bikini Magazine (1999)

Tradução: Eder Capobianco Antimidia

Meu primeiro dia como um acompanhante, e meu primeiro “encontro” tinha apenas uma perna. Ele foi para uma sauna gay curtir um vapor, ele disse. Talvez para sexo. E caiu no sono dentro da sauna, muito perto do aquecedor. Ficou ali inconsciente por horas até alguém encontra-lo. Até a carne da sua coxa esquerda ficar completamente, e literalmente, assada.

Ele não podia mais andar, mas sua mãe estava vindo de Wisconsin para ver ele, e o hospício precisava de alguém para carregar os dois numa visita aos pontos turísticos da cidade. Ir ao shopping no centro. Ver a praia. As cataratas Multnomah. Isso era tudo o que você poderia fazer como voluntário se você não fosse uma enfermeira, ou um cozinheiro, ou médico.

Você era um acompanhante, e este era o lugar onde jovens sem plano de saúde vão para morrer. O nome do hospício nunca consigo lembrar. Esta não era qualquer casa, e eles diziam para você ser discreto porque os vizinhos não sabiam o que acontecia no casarão velho da rua, uma rua que tinha também casas cheias de viciados, biqueiras e controlada por marginais, ainda assim ninguém queria ser vizinho de uma casa onde quatro pessoas estavam morrendo na sala de estar e duas na sala de jantar. Pelo menos duas pessoas estavam morrendo em cada quarto no andar de cima e havia um monte de quartos. Pelo menos metade dessas pessoas tinham AIDS, mas a casa não discriminava ninguém. Você poderia vir aqui e morrer de qualquer coisa.

O motivo de eu estar lá era meu trabalho. Isso significava carregar de volta uma empilhadeira de uns 200 quilos, num caminhão classe 8, no peito, com algo escorrendo entre minhas pernas até os pés. Meu trabalho era rolar por debaixo da caminhão e depois montar tudo como numa linha de produção, e eu tinha instalado o sistema de transmissão também. Vinte e seis transmissões a cada oito horas. Trabalhando rápido, como anda um caminhão, numa cabine quente de pintura, muito perto do fim da linha.

Minha formação em jornalismo não me daria mais que cinco dólares por hora. Outros caras no emprego também tinham a mesma formação, e brincávamos que as faculdades de arte liberal deveriam incluir trabalho com solda na grade, assim você poderia ganhar dois dólares a mais por hora, nosso chefe pagava gemendo para quem soubesse soldar. Alguém me convidou para ir numa igreja, e eu estava desesperado o suficiente para ir, e na igreja eles tinham uma figueira num vaso que eles chamavam de Árvore da Generosidade, decorada com ornamentos de papéis, cada um impresso com uma boa ação que você escolhia. Meu ornamento dizia: pegue um paciente no hospício para um encontro.

Esta era a palavra, “encontro”. E tinha um número de telefone.

Peguei o homem com uma perna só, depois levei ele e a mãe dele por todos os lugares, os miradouros, os museus, e sua cadeira de rodas dobrada em cima do meu Mercury Bobcat de quinze anos. Sua mãe fumava, quieta. Seu filho tinha trinta anos de idade, e ela duas semanas de férias. A noite tinha que leva-la de volta ao TrevelLodge perto da rodovia, e ela esta fumando, sentada no capô do meu carro, falando sobre seu filho já no passado. Ele tocava piano, ela dizia. Na escola, ele se formou em piano, mas no fim ele estava fazendo shows com órgãos elétricos em lojas do shopping.

Esta era nossa conversa depois de deixarmos as emoções de lado.

Eu estava com vinte e cinco anos, e no dia seguinte estaria de volta ao caminhão com talvez três ou quatro horas de sono. Mas agora meus problemas não pareciam tão ruins. Basta olhar para minhas mãos e meus pé e ficar maravilhado com o quanto de peso eles podiam levantar, o jeito como eu podia gritar contra os rugidos pneumáticos no trabalho, toda minha vida me senti como um milagre ao invés de um erro.

Em duas semanas a mãe estaria de volta a sua casa. Em outros três meses, seu filho teria ido. Morto, ido.

Levei pessoas com câncer para ver o oceano pela última vez. Levei pessoas com AIDS no topo do Monte Hood para ver o mundo inteiro enquanto ainda pudessem.

Sentei ao lado da cama e a enfermeira me dizia o que olhar no momento da morte, a ofegante luta inconsciente de alguém se afogando no sono com insuficiência renal e água no pulmão. O monitor tinha que fazer um bipe a cada cinco ou dez segundos, uma vez que a morfina já estivesse sido injetada no corpo do paciente. Os olhos do paciente reviravam, ficando tudo branco. Você segura a mão gelada dele por horas, até outro acompanhante chegar para te render ou isso não valer mais a pena.

A mãe em Wisconsin me enviou uma manta oriental de crochê, roxo e vermelho. Outra mãe ou avó que acompanhei me mandou uma manta azul, verde e branca. Outra trouxe um vermelho, branco e preto. Como na casa da vovó, com padrão em zigui-zague. Ficavam todos empilhados no sofá até que meus colegas de casa perguntaram se podiam guarda-los no sótão.

Pouco antes de ele morrer, o filho da mulher, o homem de uma perna só, pouco antes de ele perder a consciência, ele me pediu para entrar no seu antigo apartamento. Lá tinha um armário cheio de brinquedos sexuais. Revistas. Vibradores. Roupa de couro. Ele não queria que a mãe dele encontrasse nada daquilo, então prometi jogar tudo fora. Fui para lá, para o pequeno apartamento fechado e sem graça depois de meses vazio. Como uma cripta, diria, mas esta não é a palavra certa. Isso soa muito dramático. Como um órgão de queijo. Mas de fato, é triste. Os brinquedos sexuais e os não sei o que anais estão todos tristes. Órfãos. Esta também não é a melhor palavra, mas é a primeira que me vem a mente.

As mantas ainda estavam nas caixas no meu sótão. Todo natal meus colegas de casa iam lá procurar ornamentos e encontravam as mantas, vermelha e preta, verde e roxa, cada uma de um morto, um filho ou filha, ou neta, e eles sempre pediam se podiam usar nas suas camas ou se daria uma por boa vontade. Todo natal eu dizia, não. Não sei o que me assusta mais, jogar fora todas estas crianças mortas ou dormir com elas.

Não me pergunte por que, eu digo as pessoas. Me recuso a falar sobre isso. Tudo isso foi há dez anos atrás. Vendi o Bobcar em 1989. Deixei de ser um acompanhante. Por causa do homem de uma perna só talvez, depois que ele morreu, depois que seus brinquedos de sexo estavam todos ensacados, depois de eles serem jogados na lixeira, depois das janelas do apartamento terem sido abertas e o cheiro de couro, latex e merda terem saído, o apartamento parecia bom. O sofá-cama era de um rosa de bom gosto, as parede e carpetes creme. A pequena cozinha tinha bancadas de açougueiros. Os banheiros eram todos brancos e limpos.

Sentei-me ali, no silêncio do bom gosto. Eu poderia ter vivido lá.

Qualquer um poderia ter vivido lá.

Texto original | http://fli.newgrounds.com/news/post/374893

Mais sobre Chuck Palahniuk | http://pt.wikipedia.org/wiki/Chuck_Palahniuk

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