All Star #37 [conto]

Foto | Antimidia

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Se andasse armado me mataria ao menos dez vezes por dia. A primeira seria logo ao acordar. Qualquer um que já teve 17 anos sabe o quão difícil é encarar a escola as vezes. Não aguento mais ver a Ana Paula namorando aquele cretino do Toni. Também esta ficando complicado aceitar o fato de que o ano vai acabar e não vou entrar em nenhuma universidade. A idéia de continuar vivendo numa cidadezinha do interior me apavora. Partindo deste ponto, não vale muito mais a pena estudar. Sendo assim dormir mais um pouco e chegar na segunda aula não vai mudar nada. Talvez seja melhor não sofrer com isso hoje.

Fui para a casa do professor Jones. Ele era um senhor que resistia a aposentadoria em nome da literatura. Falava pouco e sempre escutava o que qualquer um tivesse a dizer como se fosse a coisa mais importante do mundo. Perto dele tudo parecia fácil, até viver sendo meio burro. “Você não tinha que estar na sala de aula?” A esposa dele quem atendeu a porta. “Sim, mas hoje queria pensar um pouco.” “O Jotinha vai gostar que você veio. Ele esta tomando café na sala.” A D. Véva fazia uns pãozinhos deliciosos. Sentei ao lado do professor e aceitei quando ele ofereceu um. “Não sei, mas vou sair do colegial sabendo só duas coisas: ler e escrever.”, disse um pouco desanimado. “Que pessimismo. Dá para fazer muita coisa só com isso.”

Queria passar a manhã toda descobrindo o que dava para fazer da vida com minha sabedoria, mas o professor tinha que ler o jornal, e eu escutar música. Já passavam das nove, e a loja de CD’s com certeza estaria aberta. Existem milhões de jeitos de conhecer músicas novas, mas o mais legal é conversando com o Dé na Curva de Rio. As vezes parecia que antes mesmo da banda existir ele já havia escutado falar dela. “O rock nunca vai acabar porque ele é uma atitude. Não é só uma guitarra estridente e cabelo comprido”, o discurso não mudava. Dá para saber que alguém está envelhecendo quando ele começa a repetir sempre as mesmas teorias. “Entendo, mas aí qualquer um pega um violão e sai por aí dizendo que é roqueiro. Não é assim”. Então ele abre a case pessoal dele e tira um Raul Seixas. Toda minha tese vai por água abaixo.

Mesmo matando aula não consigo ficar longe da escola um dia inteiro. Depois de um tempo insistindo que o Raulzito podia ser Rock’n Roll, mas o Fágner jamais, fui para lá encontrar o pessoal saindo da aula. Fiquei escondido na praça no quarteirão de cima para não ser visto pelas minhas irmãs. Percebi que a galera estava vindo quando escutei a risada da Tati. Era uma gargalhada animada, contagiante. Com ela a gente ria de tudo. É mais fácil ser feliz com os amigos por perto. Descemos um pouco a rua e entramos numa construção abandonada para fumar. Saímos de lá e demos de cara com a Ana Paula. O olhar dela de reprovação fazia eu me arrepender de ter nascido. O estômago revirava em angustia e parecia que todas as borboletas estavam morrendo. Me sentia um verdadeiro drogado, um caso perdido. Ela nos cumprimentou só por educação. “E aí?” Queria dizer um monte de coisas, mas não sabia como. “Sou apaixonado por você desde a 6ª série.” “Penso em te dar um beijo todos os dias.” “Casa comigo?” “Nossos filhos vão ser lindos.” Respondi um oi murcho, baixinho. Queria mesmo enfiar uma bala na minha cabeça.

Começou a chover, então parei na locadora. A Fernanda sempre tinha um bom filme para indicar. “Não vou deixar você sair daqui com Entrevista com o Vampiro pela terceira vez neste mês. Leva Vanilla Sky que tem a sua cara”. Quando se frequenta os mesmo lugares por muito tempo as atendentes conhecem você mais do que você mesmo. Os gostos revelam tudo sobre as pessoas. Os sonhos, os medos, os desejos e as vezes até o futuro. Por isso que quando duas pessoas que curtem as mesmas coisas se encontram parece que elas se conhecem a décadas. Acho que é assim que a gente reconhece a garota da nossa vida. Pode-se passar horas junto com ela que em nenhum momento dá vontade de apertar o gatilho para nunca saber o que aconteceu depois.

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