Cão que não ladra, morde [conto]

Os dias vão se passando. Iguais e repetidamente. Até que acontece alguma coisa que muda tudo. Então não dá mais para voltar atrás. Para Walter este momento foi quando entrou no escritório do Dr. Parede. Era uma sala velha, com o carpete surrado e livros empoeirados. Ele estava no telefone recomendando para uma cliente que aguentasse firme as pressões do corno e não saísse de casa. Com a mão ele apontou para a cadeira da direita. Ainda com sinais, e falando qualquer coisa sobre perder os direitos à casa e aos móveis, ofereceu uma xícara de café para ele.

Dois dias antes Walter tinha visto no jornal um anúncio de emprego para advogado sem escrúpulos. Diante da crise ele enviou um currículo. “Então o Sr. esta disposto a fazer o que tiver que ser feito para ganhar um caso?” Ele acenou que sim com a cabeça com medo de perguntar o significado pleno de “o que tiver que ser feito”. O Dr. Parede abriu a gaveta e pegou uns papéis. “A primeira pasta é um contrato de trabalho entre nós dois. Você pode ler e me entregar assinado amanhã. A outra é sobre o Seu Marcos. Você precisa estar no fórum para resolver isso as 15h.”

Sem tempo para perder ele sentou numa mesa no canto da sala e começou a revirar o calhamaço de folhas. O caso era sobre um chefe que cometia todos os crimes de assédio previstos em lei. Duas funcionárias e um funcionário tinham sido demitidos e aberto o processo.

“É importante você saber que tudo que eles dizem é verdade. Mas isso não significa que o Seu Marcos é culpado. Só que ele é um grande filha da puta”.

“E o que nós vamos dizer? Que os funcionários se uniram para forjar provas contra um chefe exigente?”

“Provavelmente. Depois disso vamos provar que eles eram incompetentes e não tinham condição intelectual de exercer sua função. Por enquanto você apenas enrola o processo pedindo a prorrogação do prazo de estudo de caso. O velho é um sujeito daquele tipo que paga a mensalidade em dia.”

Era muito dinheiro entrando. A maioria dos clientes pagava o Dr. Parede para empurrar com a barriga até o caso prescrever. Pagavam todo dia dez religiosamente com medo de serem julgados. Walter recebia dia onze a sua fatia do bolo, que só crescia. E aquela felicidade que só o dinheiro proporciona justificava todos os meios. Uma tarde ele chegou para trabalhar e viu uma pasta diferente em cima da sua mesa. Era igual dezenas de outras, mas tinha um monte de carimbos na frente. Dr. Parede estava sentado mordendo a mão esquerda. Quando Walter abriu viu algumas fotos suas tiradas na rua, do seu carro e uma extensa ficha com seus dados.

“Quem esta me espionando?”

“Um dos funcionários daquela empresa de carga que defendemos a seis meses atrás. Um tal de Antonio Silva, que assinou um documento sem ler dizendo estar ciente de que levava lixo radioativo no caminhão.”

“Vou levar isso para delegacia do Dr. Pires. Até o fim da tarde este filha da puta está preso.”

“Foi o Dr. Pires quem me entregou estes papéis. A semana passada desconfiei de um carro parado na rua detrás. Chegamos até este cara ontem, hoje foram na casa dele e encontraram isso.”

“O que ele quer?”

“Dinheiro. Vingança. Ninguém sabe.”

Walter começou a demonstrar seu nervosismo desviando o olhar para o lado a cada segundo. “Acho que é melhor você começar a andar com isso.” Dr. Parede tirou uma Beretta 9mm da gaveta e colocou em cima da mesa. Walter não pensou duas vezes, pegou ela e colocou na cintura. “O Dr. Pires vai pegar ele. E melhor você se afastar uns dias enquanto isso não se resolve. Fique tranquilo que vai acabar tudo bem.” Toda segurança que o dinheiro pode proporcionar tinha ido para o espaço. Ele não sabia para onde ir. Deu voltas e mais voltas pela cidade. Ligou para seus pais para se certificar de que estavam bem. Depois para sua namorada e mais meia duzia de amigos. Todos bem. Então ele foi se acalmando naturalmente. Quando já não havia mais trânsito, e ele podia verificar com mais eficacia se estava sendo seguido ou não, criou coragem para ir para casa.

Cumprimentou o porteiro do prédio e começou a se sentir seguro novamente. Não sairia pelos próximos dias, evitaria luzes acesas e todos os cuidados que quem está sendo perseguido pode ter. Foi a primeira vez que passou pela sua cabeça que no final tudo acabaria bem. Dr. Parede já tinha contado uma ou duas histórias de loucos que perderam um caso para ele e tentaram se vingar. Por isso sua esposa e filhos moravam no interior. Precisava só manter uma rotina de segurança e seguir o conselho de sumir por uns tempos. Quando ele abriu a porta do apartamento e colocou o primeiro pé para dentro um cano de ferro atingiu a sua cabeça violentamente. Ele caiu para dentro da sala, com as luzes apagadas. Sua primeira reação foi procurar a arma na cintura. Apontou ela para frente e deu dois tiros. Acertou um na perna de Antonio que caiu. Walter não conseguia enxergar direito e tudo girava. O louco conseguiu se reerguer. Com a barra de ferro bateu na cabeça de Walter até resumir ele numa carcassa morta e sem vida. Depois pegou a Beretta e atirou no céu da própria boca.

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