Fatos Cotidianos 12 – Junkie de sorte [conto]

Eram quase meio dia quando o telefone tocou. Acordar com o telefone tocando já é sinal de um dia ruim. Se já tem alguém te procurando é por que por algum motivo você já tinha que estar de pé. Não era raro ser acordado atrasado. Quando não ligavam para avisá-lo que era bom que levantasse para cumprir com seus compromissos no horário, era porque alguém já tinha sido incumbido de ir buscá-lo pessoalmente.

Sua voz denunciou seu estado lamentável, e a primeira coisa que ele escutou foi: “Você não tinha que estar aqui dez minutos atrás para uma reunião?” Não era a primeira vez que se atrasava, e nem seria a última que se esquecia de uma reunião, e também não é nada agradável acordar com uma notícia destas. Ainda mais se levarmos em consideração que ele pegou no sono eram pouco menos de nove horas da manhã.

“Talvez tivesse, mas vou chegar com umas três horas de atraso, ou nem vou”. Não, não esta tudo bem e nem parece que vai ficar. Isso era o que ele responderia se fosse perguntado como se sentia naquele momento. Então desligou o telefone e se enfiou debaixo do chuveiro quente. O vapor ajudava a limpar seu nariz, que não parava de escorrer. A vontade de deixar sua casa era semelhante ao desejo de conhecer o mundo numa bicicleta, e como ele não sabia andar sobre duas rodas…

Indisposto, com sono e com uma indisfarçável gripe colombiana, concluiu que o melhor seria tomar alguma coisa forte para tentar se animar a encarar o dia. Whiskey barato. Era o que tinha, era o que ia. Colocou meio copo, e tomou em três goladas enquanto comia seu café da manhã. Pão, manteiga e queijo. Pão duro, manteiga rançosa e queijo mofado. Tudo que seu corpo precisava para continuar funcionando mal e porcamente.

Havia se passado pouco mais de uma hora do telefonema, e como estavam previsto três horas de atraso, tinha tempo para fumar um baseado. Ligou o som, colocou mais meio copo de bebida e sentou no sofá. Quando deu o primeiro trago a campanhia tocou. “Não podemos esperar até às 15h. Você esta com uma aparência horrível. Coloque uma roupa aceitável, acabe com este baseado e este copo que temos que ir.” Este babaca esta me dando ordens? Pensou enquanto subia as escadas para o quarto sem dar uma palavra, e sem esconder sua insatisfação.

Entendeu por roupa aceitável uma calça jeans que não estivesse fedendo e uma camisa mal passada. “Já que veio vamos com teu carro, e vou levar a garrafa.” Como estava se comportando bem, se sentiu no direito de fazer algumas exigências. “Vou pegar um pouco de maconha”, falou pensando que se a reunião começasse a se alongar ele acenderia um baseado, empestearia a sala com o cheiro da erva e encurtaria as discussões.

“Como seu empresário minha função e lhe dar conselhos. Estão todos putos com você pelo atraso, do material, da reunião, de tudo. Então não aconselho que entre com esta garrafa e acenda o baseado. Também acho que você deveria passar um perfume e chupar uma bala para disfarçar o hálito”. E daí? Pensou. Quem mais toparia aquele trabalho pela mixaria que pagavam? Quem faria melhor por tão pouco? Iam ter que enfiar o rabo entre as pernas e aceitar seus prazos e condições. “Por que ainda trabalho para estes caras?”

“Diga alguma coisa porra”. “Não vou seguir seus conselhos. Afinal, foram eles que me deixaram nesta situação bisonha”. “E também o levaram a receber dois prêmios internacionalmente reconhecidos”. “Calma ai, todos nós sabemos que as pessoas que me escolheram não sabiam o que estavam fazendo, se soubessem qualquer outro tinha ganhado”. Foi fitado com um ar de raiva e desilusão, o que melhorou um pouco seu humor. “Esqueça, eu sei o que fazer”, finalizou.

Do momento em que desceu do carro até quando entrou na sala de reuniões não moveu um músculo do rosto sisudo. Sentou na primeira cadeira ao lado da ponta da mesa, onde fica o presidente da empresa. Em dez segundos todos já tinham tomado seus assentos. Quando percebeu que olhavam para ele, sua garrafa e seu copo, tirou a maconha do bolso e começou a dixavar em cima da mesa. “Por que mesmo estamos aqui?”. “Por que você é um filha da puta de talento, e eu um imbecil que continua financiando suas merdas que infelizmente me dão dinheiro”.

*Conto publicado originalmente no Portal Cannabica | http://www.cannabica.com.br

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