Fatos Cotidianos 17 – A vida dói [conto]

Fatos Cotidianos 17 – A vida dói

Não sei qual o dia da semana. Não faz diferença desde que a dor de cabeça passe. Nem é motivo suficiente para sair da cama. Será que existe um mundo sem dores? Um lugar onde todo pecado fica impune. Ficar me martirizando pela noite de ontem e os últimos trinta anos, ou pela garota da minha vida que se foi, também não vai me levar a lugar nenhum. Já que sem ela, melhor sozinho que mal acompanhado. Não estou sozinho, ou tenho três braços?

Talvez seja ela que esteja mal acompanhada. Não sou recomendável para convívio em sociedade antes de duas cervejas e uns cigarros. Com estes vermes cavocando o meio do meu lóbulo frontal me torno uma verdadeira ameaça publica. Se eu tivesse três desejo agora pediria coca-cola gelado, cigarro nacional e uma vida nova. Deus? Você esta aí? Iria considerar um sim se o Senhor fizesse esta alma penada sumir do meu lado. Não? Senhor? O Senhor não esta aí?

“Você está falando sozinho?” Não era para fazer ela falar, era para levar ela embora. “Talvez? O que eu estava falando?” Não reconhecia nem aquela cara, nem aquela voz. Ela virou para o lado. Continuei minha conversa com o Senhor, mas nada acontecia. “Já vou embora. Preciso só de um banheiro.” “Você lê pensamentos ou também tem uma conexão direta com Deus? Primeira porta a direita.” “Leio pensamentos.” Ela se voltou para mim com uma cara de desprezo que me deixou com uma expressão assustada.

Enquanto ela vomitava na privada eu pensava: “Faz café e vai embora, faz café e vai embora…” Ela só leu metade do pensamento, e foi embora sem se despedir. Fiquei deitado sentindo o mundo rodar e alguma coisa cavocar a minha cabeça. Abri a gaveta do criado mudo e peguei uma aspirina, um relaxante muscular e um Plazil.

Era pouco mais de dez horas quando consegui fazer com que todas as minhas energias superassem as dores e fobias e me tirassem da cama. Foi a necessidade de trabalhar que me deu este impulso na verdade. Entrei no carro, levantei a bandeira um e comecei a rodar pela cidade. Passando pela Nove de Julho uma mulher fez sinal para eu parar. Ela entrou, bateu a porta com força e falou: “Quero ir para o mais longe possível”.

Olhei pelo retrovisor e vi que ela estava chorando. Não gosto de ver mulher chorando. Começo a dar tudo que elas pedem. Atravessei a Paulista, desci a Augusta, cruzei a Faria Lima e quando já estávamos perto da Praça Pan Americana falei: “Senhora, já estamos andando a quase um hora. Preciso de um destino.” “Me deixe em qualquer bar pela Lapa.” Parei em um na Barão de Jundiaí. “Você não quer tomar alguma coisa comigo? Não quero ficar sozinha.”

Descemos do táxi e sentamos em uma mesa. “Desculpa minha situação. Acabei de sair do emprego. Não posso mais viver assim. Cansei de ser enrolada. Aquele cretino nunca vai se separar.” Então ela desatou a chorar. Antes dela tomar o primeiro copo eu já estava no segundo. Agora parecia que as dores nunca tinham existido. “Mais eu amo ele”, ela murmurava. “A quanto tempo vocês são amantes?” “Um ano.” Não era tanto tempo para amar alguém tanto assim.

Pedi mais uma cerveja e uma vodka. O humor dela começou a melhorar. “Obrigado por me fazer companhia. Não quero chegar em casa assim e escutar minha mãe falando: “eu avisei, eu sabia…” Depois da terceira cerveja ela já estava sorrindo. “Você é casado? Nunca mais quero ficar com um homem casado.” “Não. Estou tão livre quanto aquele táxi.” Saímos do bar com algumas cervejas e uma garrafa de conhaque. Fomos para minha casa. Não lembro dela ter ido embora. Acordei pela manhã no sofá com todas as dores que um homem é capaz de sentir.

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