O poço não tem fundo, é lenda [conto]

Sobe a Brigadeiro Luis Antonio. Passos largos, velocidade total. Sem desviar. Cortando o fluxo das pessoas. Olhos esbugalhados rasgando o horizonte. Andar sem foco, com firmeza. E aqueles filhos da puta vão morrer. Vão morrer na porrada! Todos os filhos da puta! Atravessa a Paulista. Transpirando raiva. Pulsando ódio. Um empurrão daqui, um xingamento de lá, e o mar de gente continua a se abrir. Aqui não tem nenhum otário. Acelera. A camisa xadrez aberta tremula, como se fosse uma bandeira. Porcos desgraçados. Aconteceu de novo. De novo! Desce a Consolação. Quebra vidro. Chuta lixeira.

Todos aquelas diplomas pendurados nas paredes. A prova definitiva que não passam de uns merdas. Com toda aquela pompa de otários. Vão direto para o inferno. Sem escalas. Sem alívio. Sem escrúpulos. O bar inteiro procura e ninguém acha. Quem são? Quem são? Não vão fugir. Os cretinos bastardos não vão fugir. Cadê!? Cadê a corja!? Bicudo na porta do banheiro. Porrada no balcão. O bagulho estalando na mão. Cabelos grudados na testa suada. Ninguém fala nada! Ninguém sabe de porra nenhuma!? Respiração ofegante. Veias esturricadas. Cabeça a milhão. Abram a porra dessa boca! Chegou a hora…

Tiros, tiros, muitos tiros. Ninguém mais pode parar esta porra! O rei do mundo. De todo mundo. Sentido República. A caça continua. Babando. Cambaleante. Puro impulso. Entra no metrô. Sai daqui. Praça da Sé. Barulho. Sobe. Desce. Dentro. Fora. Fora de controle. Ainda procurando. O quê? O quê? Mãos tremulas. Pernas inquietas. Abre, abre, abre. Barulho. Fumaça. Gritos. Aonde? Aonde? Localizar e destruir. Estourar miolos. Quebrar ossos. Visão embaçada. Boca seca. Nariz vazando. Parem de olhar. Parem de olhar!

O andar frenético. Estriguinado. A adrenalina jorrando no peito. Por que? Por que isso aconteceu? Segue em frente. Vai! Malditas sirenes! Maldito lixo! Sai da frente! Volta. Volta tudo. Tudo como era antes. Como? Como foi chegar neste ponto? O universo inteiro conspirando. Todo mundo aqui é culpado. Matar. Matar todos os culpados. Soco na cara. Pontapé no estômago. Quebra para esquerda. Cai na São João. Largo do Arouche. Vamos! Apareçam! Corpo retorcido. Expressão fissurada. A justiça chegou, sem dó nem piedade.

Passa tudo! Agressivo. Violento. Tapa na cara. Passa tudo! Direção Barão de Itapetininga. De volta ao começo. Matar todos aqueles filhos da puta. Moer todos eles de pancada. Todas estas pedras de merda no chão. Cabeça em pé. Costas curvadas. Sem rumo, sem saída. Cada minuto que passa é um chance da virar a mesa. Ardendo com a dor encravada no fundo da alma. Chorando lágrimas secas. Roendo mãos sem unhas. Dentes travados. Punhos serrados. Olhar vidrado. Pés rachados. Tropeçar. Cair. Levantar. Quando? Quando esta porra vai acabar!?

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