Quem procura acha [conto]

E vinham todos andando em fila. As pessoas abriam passagem pela calçada. E vinham todos com as pesadas caixas de madeira na mão. E ninguém sabia o que tinha dentro delas. Saiam todos de um buraco de esgoto. Eram dezenas de pessoas andando uma atrás da outra, com uma caixa de madeira, tipo estas de carregar verdura, mas do tamanho de umas três empilhadas. Atravessavam toda Av. 9 de Julho, no sentido centro, sem serem incomodados e entravam num prédio espelhado. Depois saiam todos em fila, no sentido bairro, e voltavam para o esgoto. Não tinham nenhuma expressão, eram grandes e usavam todos o mesmo macacão azul. Pareciam com formigas sincronizadas estocando comida no inverno. Já estavam a mais de duas horas passando com as caixas para cá e para lá.

Jocimar olhava toda aquela movimentação com curiosidade, e um pouco de preocupação. Ninguém perguntava nada para eles. Parecia que aquele vai e vem era normal, ou não estava acontecendo. Ele abandonou seu posto na portaria do prédio e foi até o portão. “Ei, amigo. O que está acontecendo?” O carregador de caixas nem olhou para ele. Então ele tentou outro. “Ei, da onde vem estas caixas?” Nenhuma reação. Diante de tamanho descaso ele resolveu encrespar. Voltou para a casinha, pegou o telefone e ligou para a polícia. “Sou porteiro aqui na 9 de Julho e estou observando uma movimentação estranha. Um sem fim de homens saem do esgoto carregando caixas e entram com elas num prédio. Acho que vocês deviam checar isso.” A atendente agradeceu a ligação e disse que iria verificar.

Em menos de um minuto dezenas de Rocans e algumas viaturas apareceram na avenida. Ele foi direto ao portão esperando ver alguma coisa acontecer. O que ele viu foram dezenas de policiais garantindo que os carregadores fizessem seu trabalho sem serem incomodados. Jocimar estava mais perdido que minhoca no asfalto. As coisas não faziam sentido. Ele abriu o portão e fui ao encontro de um policial. “Senhor? O que esta acontecendo?” “Nada, pode ficar tranquilo que estamos aqui.”, disse o guarda. “Mas o que tem dentro destas caixas?” “É apenas uma mudança, pode voltar ao trabalho.” “Não é estranho tantas pessoas saírem do esgoto carregando caixas que ninguém sabe da onde vem e o que tem dentro?” “Volte ao trabalho ou vou prende-lo por desacato.”

Irritado com a falta de consideração do policial ele entrou na portaria e ligou para o 32. “Bom dia Dra. Marisa. Tem alguma coisa errada acontecendo aqui na calçada. A Dra. podia descer aqui para ver?” A advogada apareceu na frente do prédio e Jocimar contou toda a história. Pessoas saem de esgoto carregando caixas, entram no prédio, voltam para o esgoto, policial que não sabe nada e outras coisas que passavam pela sua cabeça. Num primeiro momento Marisa ficou intrigada. Fez cara de Dra. e foi falar com o policial. Da portaria ele via ela falar muito e respostas curtas. Pouco tempo depois ela voltou com cara de paisagem. “Não se preocupe Jocimar. Não é nada demais. Só uma mudança.” Sem dar chances para perguntas ela subiu, sem também saber o que estava acontecendo.

Depois de mais de cinco horas naquele ciclo das caixas todos sumiram. Carregadores voltaram para o esgoto e policiais para delegacia. Jocimar não conseguia parar de pensar no que tudo aquilo significava. Saiu do seu turno e começou a conversar com os outros porteiros, o pessoal do posto de gasolina, pelas lojas. Alguns nem tinham percebido a movimentação, outros não viam nada de tão anormal em carregadores saírem do esgoto com caixas. O fato é que ninguém se preocupava com o ocorrido no mesmo nível que ele. Certo de que algo de muito errado tinha acontecido ali, e vendo que se não fosse por conta própria jamais saberia, o porteiro resolveu arriscar tudo. Sem pestanejar ele abriu a boca do esgoto e desceu. Nem os carregadores nem Jocimar foram vistos novamente.

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