“O” de Otário [conto]

Só quem é professor substituto em escola pública sabe o que isso significa. O quão difícil é sair da cama pela manhã. César estava no seu segundo ano como categoria “O”. Não era um bom ano. Ele não tinha nenhuma aula para chamar de sua. Toda vez enquanto se preparava para sair pensava no porque não voltar para carreira de pedreiro. Hoje um pedreiro não ganha menos que cem mangos por dia para bater massa. Em um dia inteiro, com toda a grade completa de aulas como substituto, ele não ganhava mais que a metade. Então se sentia um otário completo. Se a educação vai salvar o mundo ele não fazia parte deste projeto.

Depois de metrô, baldeação e lotação lotada, lá estava ele na sala dos professores. A cara de pena com que todos olhavam na sua direção tinha o efeito de ganchos de direita no queixo. Pior que estudar numa escola publica é dar aulas nela. D. Ana, a secretária, chamou ele e disse que teria duas aulas para ele como substituto, mas que outras podiam aparecer. Nenhuma delas que envolvesse seus conhecimentos de Português e Literatura. Uma era pela manhã, de física, a outra a tarde, de biologia. Não era o suficiente para ter acordado. Não era o suficiente para pagar o ônibus e o almoço. Não valia a pena.

Eram trinta e cinco vozes falando ao mesmo tempo. César entrou, colocou uma pasta em cima da mesa e disparou à escrever na lousa. Alguns começaram a copiar, outros nem notaram sua presença. Depois de preencher todo espaço possível com texto e gráficos, como sugeria a apostila, ele esperou dez minutos e começou. “Silêncio por favor. Prestem atenção”. O lado direito da sala continuava a ignorar que ele estava ali tentando dar uma aula. Depois de um tempo uma meia dúzia saiu da classe, e por alguns minutos até foi possível para um professor de português ensinar física.

Passar o dia na sala dos professores era atormentador, deixava o dia amargo. César ficava horas lá, sentado, esperando uma aula cair na sua cabeça. “Alguém podia matar aquele marginal do 6ª B na rua”, dizia uma megera. “Estes vagabundos não podem reclamar, só tem o que merecem”, falava o frustrado. “Nós precisamos da polícia na escola!”, bradava a diretora. Algumas vezes ele saia. Ia até o banheiro e ficava lá sentado, fingindo que estava cagando, fingindo que não estava ali. Nunca adiantou.

Não era exatamente isso que Paulo Freire tinha em mente quando pensava em educação. Depois de sair da faculdade estas coisas não tinham a mesma importância. Importante mesmo era fazer cinquenta minutos passar sem que ninguém matasse ninguém ou quebrasse alguma coisa que tivesse a aurora de “patrimônio publico”. Colocado isso qualquer outro resultado era lucro. Foi o que César pensou logo que entrou na 7ª C para dar aula de biologia. Alguém escreveu cheio de estilo no quadro negro: “categoria O de otário!” Sem muitos argumentos ele deixou a frase lá, sentou na sua mesa, e ficou esperando o tempo passar.

Mais ou menos umas cinco da tarde a D. Ana avisou que não haveria mais aulas para aquele dia. César juntou seus papéis numa mochila e saiu. O aperto do coletivo a esta hora é o suficiente para esmagar qualquer vestígio de esperança. Depois de um tempo vivendo assim a palavra futuro vira sinônimo de medo. Não dava para enfrentar a noite e os pensamentos sozinho. Parou no caminho e comprou uma garrafa de pinga. Um pouco depois da metade da garrafa ele desmaiou no sofá sonhando em nunca mais acordar.

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