Deixe a vida florescer e não entre em pânico [conto]

Abri os olhos ainda na dúvida: que parte do que aconteceu ontem era só um pesadelo? Notei a filha do Jaime do meu lado e conclui que o sonho já havia acabado muito antes do John Lennon. Mas as dores tinham ficado. Eram reais. Pelo corpo todo. Partes que nunca havia notado a existência latejavam. Levantei e pesarosamente foi até o banheiro. E o espelho jogou toda verdade na minha cara sem piedade: como alguma mulher tem coragem de beijar isso? Da onde vieram todos estes hematomas? Coloquei um shorts e uma camiseta e desci para cozinha. Comecei a requentar o café e pus dois pães velhos para torrar no forno. Liguei o rádio na estação de notícias, acendi um cigarro e sentei para ler o jornal. O mundo estava indo direto para o inferno a toda velocidade, eu já tinha chegado com anos de antecedência.

A filha do Jaime desceu a escada usando somente uma camiseta não tão comprida. “Meu Deus, como cheguei neste ponto?” Ela não era exatamente o que se quer ver quando se acorda com amnésia alcóolica e cheio de marcas de origem obscura. “Você quer um dinheiro para o táxi?” Pensamentos se retorciam na minha cabeça. Por sorte nenhum deles chegava a sair pela minha boca. “Você não sabe como voltou para casa, não é?!”, disse ela. “Acho que já esqueci mais do que um dia você vai saber”, respondi. Ela abriu a geladeira e pegou um pote de margarina quase vazio e um prato com um queijo amarelado. “Não entendo aonde você quer chegar assim. Vai morrer sozinho e esquecido”, disse já sentando na mesa. Ela comeu, se vestiu e foi embora.

Do jeito que minha coluna doía parecia que tinha carregado tijolo o suficiente para construir a Muralha da China. Tomei um relaxante muscular com uma talagada de conhaque e apaguei no sofá. Sonhei com um mundo acolchoado, aonde você podia cair para qualquer lado, bater em qualquer coisa, e tudo era macio como veludo. Escorria cerveja de uma bica. As flores eram como copinhos com pequenas doses de wiskey. Havia pés de cigarro, brotos de maconha e grandes árvores de queijo. Não existiam pessoas lá, somente garotas cheirosas andando para lá e para cá. Todas me olhavam e riam. Eu tocava naqueles corpos macios e sentia como se estivesse rejuvenescendo. Minha pele esticava e os dentes voltavam para o lugar de onde nunca deveriam ter saído. Era maravilhoso.

Dei por mim de novo quando já não era mais dia. As dores também já não eram tão grande quanto a preguiça. Os hematomas no meu olho e nas minhas costas, somados as dúvidas do café da manhã, eram um indicativo inquestionável de que a noite de ontem tinha terminado em pancadaria. Tomei um banho e rumei para o bar do Jaime. Quando entrei o silêncio tomou conta do salão. Me senti como o Mickey Mouse na Disney. Parecia que todos aguardavam a minha presença. Me aproximei do balcão e o Jaime veio com uma dose de qualquer coisa. “Tome isso e vá embora. Não quero confusão aqui hoje.” “Fique tranquilo, do jeito que estou hoje não conseguiria bater num espantalho.” “Se o Bate Saco aparecer por aqui você vai ser o espantalho. Não sei como você se salvou ontem.” “Nem eu. Mas tenho uma mensagem do Erasmo de Rotterdam para ele: foda-se. Do que vale a vida sem emoção?”

Não demorou muito para aquele cretino entrar no bar. Ele estava mais machucado do que eu, e tinha um corte profundo na cara. Não veio sozinho, tinha mais dois lorpas lambendo sua bunda. Lembrei de alguma coisa sobre ontem. Eu tinha uma garrafa quebrada, o Bate Saco um taco de beisebol. Consigo compreender as dores nas costas agora. Tacadas. Com um aceno de cabeça, e um dedo girando, pedi para o Jaime servir uma rodada para todos. “Ouçam os dois. Ninguém vai brigar aqui hoje.” Disse o barbudo detrás do balcão servindo a todos com uma ripa na mão. O Bate Saco e seus cupinchas não tiravam os olhos de cima de mim.

Tomei quase meia garrafa protegido pelo Jaime e a ripa até acreditar que só sentiria as dores de uma eventual surra na manhã seguinte. Então cheguei mais perto do Bate Saco. “Quer fazer uma aposta comigo Saco de Estrume?” “Aposto cinquenta pratas que você não chega até a esquina andando.” “Aposto cem pratas que posso deixar os dois lados da sua cara iguais.” A ripa do Jaime já estava ficando pequena perto da minha audácia.

Agarrei a garrafa meio cheia e saí andando. Escutei os passos vindo atrás de mim. Então um pouco antes de atravessar a porta virei para trás rapidamente e abati um dos cupinchas com uma garrafada. O outro tirou uma navalha e veio na minha direção. Joguei o que tinha sobrado da garrafa no meio da fuça dele, que ficou caído se lamentando. Tentei correr para fora do bar mas tropecei no segundo ou terceiro passo. O Bate Saco veio para cima de mim com uma faca. Deus colocou uma barra de ferro na minha mão. Dei com ela no braço dele e a faca foi longe. Tentei levantar, mas ele me acertou o nariz no meio do caminho com um chute. Voei para trás como o Neo em Matrix. Consegui ficar de pé e dar com a barra no meio do estômago dele. Depois joguei ele contra a vidraça de uma loja. Caí no chão e fiquei ali vendo as estrelas rodando. Ouvi o barulho das sirenes se aproximando. Acho que foi a filha do Jaime que me arrastou de volta para o bar.

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