Oposição silenciosa [conto]

Ele levantou da mesa e saiu correndo por entre as pessoas. Um zunido passou pela sua direita e acertou o vidro de uma loja. “Atiraram em mim porra! Estão atirando em mim no meio da rua!” Quando olhou pelos seus ombros identificou duas pessoas correndo atrás dele, e viu o informante caído no chão sangrando muito. O mais próximo estava uns vinte metros longe. Tiros, tiros, tiros. Parou de contar quantos no décimo. “Fugir, correr, fugir, zigue zague. Da onde vem estes caras?”. Sabia que se entrasse num lugar público, tipo um supermercado, estaria se encurralando. Não era a primeira vez que fugia das autoridades, mas era a primeira vez que atiravam contra ele.

Gritos, pessoas correndo, se escondendo, se jogando no chão. Deixava um rastro de susto e perplexidade por onde passava. “Movimento pela Desestatização dos Servidores de Redes on-line”. Pensou que berrando seu ideal poderiam denunciar seu assassinato ou sequestro caso isso acontecesse ali. Alguém ouviu seus apelos e fez melhor. Jogou uma cadeira em um dos seus perseguidores, que caiu e ficou praticamente fora da caçada. Não estava no melhor dos seus preparos físicos mais corria como uma zebra fugindo do leão. A polícia não estava por perto, não era assunto deles. Virou o quarteirão de forma alucinada. Corria mexendo os braços, pernas, tudo muito rápido. Olhou para trás e não viu ninguém o perseguindo. Quando virou a cara escutou o tiro. Uma senhora caiu entre o atirador e ele, que voltou a correr.

Durante minha vida conheci alguns agentes metidos a James Bond. Neb não tinha este cacoete. Mas pensava rápido. Tinha três segundos fora da visão do agente quando virava uma esquina. Seu porte físico era de um homem forte, não com músculos. Já não respirava direito, e a velocidade estava acabando. Entrou em um parque, e a primeira árvore que viu e acreditou que podia subir alto o suficiente para não ser visto foi a que ele escolheu. Não dá para saber o que se passa na cabeça de alguém numa situação daquela. Quando viu o agente com a arma na mão entrar no parque travou a respiração. Ele parou e olhou em volta. Não viu nenhum movimento que pudesse indicar que alguém desesperado estava passando, então guardou a arma. Neb ficou ali digerindo as últimas palavras do informante. “Você não é mais confiável. Eles te descobriram e vão te substituir”.

Quando ele entrou no galpão acontecia uma reunião. “Ninguém sabe o que aconteceu comigo? Ninguém foi me procurar? Ninguém tentou se informar?” Os segundos de silêncio que se seguiram foram constrangedor para todos. “Fiquei dois dias em cima de uma árvore e ninguém deu indícios para eles que acreditavam que eu estava preso ou morto? Deixaram que eles deduzissem que ainda estou vivo e ativo no grupo. Ou vocês são burros ou queriam que eu tivesse sido pego. A ou B?” As pessoas olhavam atônicas para ele, parecendo não entender o que ele dizia.

Para Neb o importante é que tinha os arquivos, e precisava usá-los. Não valia a pena dividir a informação com alguém do grupo, o silêncio e a falta de atenção com ele o fizeram desconfiar de tudo e de todos. “Nenhuma informação sobre qualquer problema com você chegou até a gente. Você esta fora a menos de 24h. O que aconteceu?”. “Atiraram em mim no meio da rua há dois dias! Como ninguém sabe sobre isso? Acertaram civis, não saiu nada nos jornais?” Ele estava descontrolado. Nunca confiou em muita gente. Evitava situações que pudessem levantar qualquer tipo de dúvida sob sua dignidade e dedicação a causa ou o movimento. Não ficava na companhia de menos de três membros do grupo para evitar qualquer burburinho sobre predileções. Ninguém sabia seu verdadeiro nome e seu passado era conhecido por lendas. Nem o alto escalão do grupo tinha noção de quem eram suas fontes, e suas informações jamais foram questionadas ou contestadas. Suas habilidades eram superestimadas. Supunha-se que ele conseguia fazer tudo em um nível de bom a excelente.

Terminar o serviço vivo é só um detalhe na cabeça daquele inconseqüente. Não se corre riscos quando se esta disposto a perder tudo, que é nada. Por isso a vida de Neb era assim, a milhão. Quando concluiu ter certeza de que os servidores dos maiores portais do mundo estavam sendo estatizados para que o governo tivesse acesso irrestrito aos dados e pudesse mapear a vida de cada cidadão, nunca mais acessou uma rede on-line. Não tocou em um computador que não houvesse sido formatado por ele antes e depois de seu uso. Todo cuidado possível para não ser descoberto e ele era alvo de agentes engravatados no meio da rua. De dentro dele brotava uma angustia que se transformava em reações físicas, com expressões de medo e dor. Uma amiga se aproximou, e quando o tocou ele reagiu saindo com pressa por uma porta lateral.

De uma forma ou outra sempre soube que ia terminar assim, fugindo. Quando era só mais um revoltado na faculdade já se preocupava em não fazer muitas vezes o mesmo caminho, esconder a maior parte do seu passado, falar pouco sobre seus planos. Agora se sentia completamente sozinho. Não conseguia saber se podia confiar em alguém, e isso incluía sua família. Para dar o próximo passo era necessário ter noção do peso das informações que carregava displicentemente no bolso da bermuda. Sabia que estava sendo procurado. A vida tem umas coisas estranhas. A pessoa passar uma década se imaginando numa determinada posição e quando esta lá não sabe o que fazer.

Neb sempre gostou de acampar. Tinha pouco mais de seis anos quando se lembra de ter dormido numa barraca na colônia de férias. Um dos coordenadores do acampamento disse: em uma situação de perigo há três coisas que você precisa ter: calma, calma, calma. Tinha perdido seu costumeiro ar de sossego e confiança por alguns instantes. Logo que notou isso passou a respirar mais devagar. Sentiu-se seguro dentro do ônibus. Olhou o itinerário e viu que passaria por uma grande avenida. Se ajeitou o desceu próximo de um hotel. Precisava de um meio para se comunicar e conferir o conteúdo do CD. Não estava vestido como alguém que passeava ou trabalhava. Parecia mais com um jovem que acabou de sair de um jogo de futebol.

Criar histórias inacreditáveis de forma a manipular alguém fazendo com que o ajude sem perceber, uma característica que Neb não se orgulhava. Dizia que ser dissimulado era uma maneira de se manter vivo numa sociedade onde apenas com o nome era possível saber o que alguém comprou no mercadinho antes de ir para casa. Mais fácil do que fingir ser alguém e ser o que você aparenta ser. Sem nenhuma dificuldade convenceu o recepcionista do hotel que uma garota chegaria a sua procura em poucos momentos e conseguiu um quarto com computador. Usou um dos cartões de crédito que o grupo havia lhe fornecido. Quando o chip do cartão se conectou a máquina passou a dar como certo que sua localização cairia rapidamente nas mãos de todos que poderiam estar a sua procura, então tinha que ser rápido.

Sua formação era de jornalista, e seu conhecimento técnico apenas razoável. Nunca foi um programador ou hacker, como alguns acreditavam. O que o impulsionava era o repúdio contra a invasão de privacidade que o sistema atual proporcionava. Causava certa fobia a ele pensar que todo mundo poderia saber que ele não sabia de nada, não fazia nada, era um enganador. Estava um pouco receoso de usar o computador já que não teria tempo de formatá-lo. Para se prevenir abriu o PC e retirou todas as placas que possibilitassem transmissão de dados. Arrancou modem, placa de vídeo, placa de som, antena wireless, bloutouth, ficou só com o básico. Apagou o sistema operacional instalado e passou a trabalhar a partir do setup da máquina. Os arquivos estavam protegidos e tinham extensões .exe, .jpg e .txt. Conectou seu pen drive e com um programa de quebrar senhas conseguiu abrir dois arquivos .jpg e outros dois .txt.

Neb fez duas faculdades e um mestrado. Trabalhou um mais de uma dezena de editoras e detinha o respeito de todos que o cercavam. Estas pessoas com que ele tinha intimidade nunca entenderam como ele foi parar no MDSR on-line. Era uma questão que não mudava nada para ninguém na opinião da enorme maioria. Então ele abriu a primeira foto. Uma imagem sua de menos de um dia atrás em um orelhão. Ficou espantado, e com medo. O outro arquivo era outra foto dele comendo em um restaurante com suas irmãs. Aquilo não tinha acontecido. Não via sua família há pelo menos um ano. Pela sua aparência ela tinha sido tirada nos últimos seis meses. Começou e pensar no que o informante tinha dito: “substituir”? Ao abrir os dois arquivos de textos e constatar que somados davam mais de mil páginas com os mínimos detalhes da sua vida entre os dez e dezoito anos ficou desesperado. Não tinha dúvida que estava sendo vigiado de alguma forma naquele momento. Ligou para a empresa do líder do grupo e através de um código marcou de se encontrarem os dois sozinhos numa praça.

O trabalho de mestrado que Neb havia apresentado na faculdade era uma crítica as leis de direitos autorais. Foi durante seus estudos que conheceu o MDSR on-line e aderiu à causa. Quando o governo apagou os arquivos de seus blogs dos servidores por violar as leis de direitos autorais e considerá-los inapropriados, ele parou a vida e partiu para a ação. Seus primeiros alvos foram os Centros Públicos de Acesso a Servidores (CPAS). Eles surgiram para popularizar a internet e os serviços on-line, mas no fundo o intuito sempre foi concentrar o maior número possível de informações sobre as pessoas. Chegou à praça com dez minutos de atraso, para tentar notar qualquer movimentação estranha. Viu o parceiro sentado num banco. Sentou ao seu lado e falou: “onde há um banheiro por aqui?” “Naquela casinha, a porta azul”. Entrou no banheiro e viu uma cabine com a porta azul. No chão tinha um envelope com um endereço. Ele saiu e pegou um ônibus.

Depois de um ano longe do convívio das pessoas que gostava, decepções e a clandestinidade, Neb passou a questionar os fins de tudo que acorria a sua volta. Como seria sua vida se os servidores voltassem a ser geridos por empresas privadas ou organizações não governamentais que respeitariam as normas de sigilo de informações pessoais? Seriam elas que deveriam ser combatidas posteriormente? O que pode ser feito para que menos informações sejam geradas por minuto? Como diminuir a importância das informações? O que eu sei sobre o que eu faço? Não sabia mais em quem confiar, por isso entrou no quarto de hotel descrito no envelope sem bater. Além de seu compadre ele avistou mais duas pessoas. “Tem alguma coisa estranha acontecendo. Tive acesso a arquivos que me deixaram com muitas desconfianças”. “Sente-se e me mostre os arquivos. Alguém mais viu? Existem cópias deste CD?” “Não sei. O informante que me passou morreu com uma bala nas costas na minha frente. Fui perseguido a tiros pelo centro da cidade e ninguém sabe de nada?!”

Não da para prever como vai ser o fim, mas quando se escuta um tiro dentro de um quarto, o silêncio da morte ecoa na sua cabeça por séculos antes que você saiba aonde foi atingido. Neb caiu de lado na cadeira e ficou escorado na parede. Entendeu que a bala era para ele porque não conseguiu se mexer depois do barulho. Ela entrou no meio da sua testa e ele nem teve tempo de saber da onde ela veio. A última coisa que viu antes do fim foi ele mesmo saindo da porta do banheiro. “Agora só eu sou eu”.

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