Jogando as esperanças para debaixo do tapete [conto]

Saí da fábrica eram dez e qualquer coisa da noite. Depois de quarenta anos apertando parafuso numa metalúrgica não se tem muito mais a esperar da vida. O tempo parece andar cada vez mais devagar. Penso na morte quase como um final feliz. Isso não muda o fato de que cada dia o parafuso fica mais duro. Nem de que vou estar de volta a este inferno quente junto com o sol raiando pela manhã. A única coisa capaz deixar esta merda mole menos fedorenta é um copo de qualquer tipo de álcool. Ainda assim não faz valer a pena. Fazia um bom tempo que não entrava num puteiro. Tinha que fuder alguma coisa para justificar cada maldito segundo de hora extra.

Entrei lá como um viciado que entra na igreja, pronto para aceitar a primeira bosta que me empurrassem.“She ain’t exaclty small, 42-39-56, you could say she’s got it all.” Ela não era a Rosie, nem eu um roqueiro na estrada. Era um velho gordo, caraca, e uma puta rechonchuda e desdentada. “Do que você precisa meu bem?” “Só ficar por cima já vai estar bom.” Pegamos umas cervejas, uma garrafa e entramos num quarto sujo. “Hoje é segunda-feira querida, podemos pegar leve com o tempo?” “Claro baby, sou sua enquanto você me aguentar.” Não queria ter que suportar tudo aquilo mais do que as bebidas e uma trepada digna de ser esquecida.

Cheguei de volta na minha máquina de apertar parafusos de ressaca e duas horas atrasado. O tempo se arrastava como um bicho gosmento que sobe uma árvore. Não chegaria até o almoço neste ritmo. Estava suando mais rápido do que era capaz de beber água. “Sai daqui. Pega um atestado, e volta amanhã”, alguém disse. “Se for embora vou ter que ir para casa. Nada pode ser tão glorioso como morrer na frente desta geringonça parafusadora”, respondi. Enquanto estava ali, vendo meu corpo escorrer pelo macacão, três coronéis com menos de trinta anos me olhavam por um espelho dentro de um escritório com ar condicionado, água gelada e café. Enquanto minha vida escoava aos litros o dinheiro jorrava na conta deles.

Depois de sair três vezes para ir ao banheiro para buscar água (e vomitar) fui chamado na salinha dos privilegiados. “O Senhor já pensou em se aposentar?”, começou o almofadinha número um. Sabia que não tinham me chamado para curtir um descanso no paraíso, mas não esperava esta ladainha. “Apostar?”, me fingi de surdo, e o tom da pergunta me assustou. “APOSENTAR”, disse o merdinha número dois. “Não, Deus acha que ainda não trabalhei o suficiente.” “Mas nós sim. Sua ficha diz que você já esta aqui a mais de quarenta anos.”, o porquinho número três entrou na conversa. Olhei para os outros trabalhando e percebi que a sala estava numa posição estratégica para vigiar todos. Num movimento sincronizado a linha se virava para trás, pegava o parafuso, e colocava na máquina com a mão esquerda. Depois com a direita girava ele. Tudo em pouco mais de cinco segundos. “E a sua ficha? Diz que você esta aqui a dois meses? Não vou me aposentar.” Um olhou para o outro e ninguém falou nada. Me apossei de uma garrafinha de água gelada e voltei para o inferno.

“Então você vai se aposentar?”, o alguém perguntou. “Como chamavam você na escola? Passa e repassa? Cala esta boca e continua apertando parafuso.” Os três porquinhos estavam apostos atrás do vidro, olhando para mim e falando qualquer bobagem. Eles sabiam que não iam me pegar. Pela lei ainda posso ficar mais cinco anos aqui dentro. Sabiam que precisavam de muito mais que a minha vontade para me colocar para fora. Como o Jaime, que perdeu dois dedos numa prensa. Se aposentou e abriu um bar. Vive uma vida miserável. Tinha o bastardo do Polenta. Uma cortadeira de chapas decepou sua mão e disseram que ele era inválido. Morreu com uma facada da sua adorável esposa seis meses depois. O velho Jonas resistiu tanto a parar que a fábrica pediu uma liminar que o impedia de ficar a menos de cinquenta metros do portão. No fim ele se jogou no mar para ser comida de tubarão.

Bem perto de eu ter uma epifania mental inspirado pela vodca o sinal do almoço tocou. Como numa ação maquinada, todos entramos em fila. Primeiro tiramos a luva da mão esquerda, depois da direita. Coloca numa caixa com os polegares amarrados. Capacete e piolhos na outra. Botas e micoses na entrada do refeitório. Calçar chinelos com frieiras a frente. Pegar bandeja. Um passo para frente, levantar bandeja, colherada de ração. Quatro passos. Pegar potinho de sobremesa e talher. Sentar no lugar vazio ao lado da última ameba que entrou. Comer como um vira lata revira um saco de lixo. Acender um cigarro. Chafurdar no sol por dez minutos. Uma hora de almoço para viajem! Voltar para máquina! Em dias como este nunca sei se ainda é ressaca ou um deja vu do álcool. Também não sei como não parafusei o dedo nesta porra de máquina numa destas rebordosas todas que tive desde que cheguei aqui.

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