Ovelhas sem rebanho num mundo sem cordeiros [conto]

Érica entrou no bar depois de uma porrada na porta. Todo mundo olhou na sua direção. “Voltei Jaime!” Ele estava de costas mexendo em umas garrafas. Viu tudo pelo espelho e não escondeu sua expressão de “que merda!”. Ela foi até o balcão e sacou uma nota de cem. “Me dá uma garrafa forte e desconta o troco da minha conta.” Ninguém nega dinheiro. O Jaime pegou a nota, uma garrafa de conhaque barato e devolveu uma moeda. “Ainda não paga tudo.” “Seu safado de merda. Não é a toá que esta espelunca vive vazia. Quero pelo menos dez e uma cerveja de volta”. As rugas dele começaram a crescer, mas ele pegou a garrafa e o dinheiro e entregou para ela.

Em geral as pessoas evitavam olhar para Érica. Não era exatamente amor o sentimento que ela despertava a primeira vista. Como as mesas pareciam alheias a sua presença ela se fez escutar. “Tem algum homem aqui disposto a um porre e uma foda?” Ninguém se candidatou. “Bando de frouxos!”. Nada mudou. Ela sentou num canto sozinha. Encheu um copo de cerveja e deu uma boa talagada na garrafa. Entre um e outro acendeu um cigarro. Um sujeito saiu do banheiro. “Ouvi alguém falar sobre um porre e uma foda”, disse enquanto ia na direção dela. Ele não era exatamente o tipo boa pinta. Não importava muito. “Fui eu garanhão. Esta disposto?” Ela levantou a garrafa, ele não exitou.

O cara chamou ela para o banheiro. “É cocaína?”, ela perguntou. “Não, fermento”, ele respondeu. “Então faz crescer?”, disse com um sorriso sacana. “Hoje você vai voar baby”, retrucou. Os dois começaram a se agarrar no banheiro. Um torto, e outra se retorcendo. Veio do nada um estrondo. POW! Era o Jaime, que a chutes e pontapés reclamava. “Meu bar não é puteiro porra!”. Pronto para briga o valentão saiu da cabine. A ripa na mão do Jaime e sua cara de maníaco pararam ele antes que qualquer coisa pudesse sair da sua boca. “Não vale a pena amor. Vamos para outro lugar”, disse Érica tentando se agarrar no rapaz, que tremia como uma máquina de lavar roupas velha.

Depois de andarem sem direção, e serem escolhambados numa praça perdida pela cidade, decidiram ir para a pensão onde ele vivia. “Tem mais bebida lá”, ele argumentou. “O que você quiser”, ela murmurou. Foram se aproximando de um sobrado velho. As luzes estavam acesas, o rádio exalava Ney Matogrosso. Uma meia duzia estava numa sala enchendo a cara e cheirando fermento como se não houvesse amanhã. Érica entrou na dança sem perceber. “Vira! Vira! Vira! Vira! Vira! Vira Homem! Vira! Vira! Vira! Vira! Lobisomem…” A noite ia se indo quando Érica notou que o cara não estava mais lá. Ninguém fez questão de responder suas perguntas. Era difícil entender o que ela falava.

Então ela saiu procurando por quartos. Enquanto passava pelo corredor começou a sentir algo estranho. Como se o vento soprasse em direções diferentes. O som tinha sumido. Debaixo de uma porta saia uma luz verde, intensa. Sem pensar muito, e com calma, ela girou a maçaneta. Quando pode olhar para dentro viu um baixinho, com três braços e um olho no meio da testa, levitando, sentado no ar. Três mini elefantes andavam em volta dele no chão, subindo e descendo suas trombinhas. Foi compelida a entrar. A porta se fechou atrás dela e os elefantinhos pararam de andar em círculos.

Eram mais de dez da manhã quando ela acordou no sofá da sala, vestindo uma camiseta que não era sua e coberta por uma manta. Seu corpo dizia para sua cabeça que a noite tinha sido agitada. Mesmo assim ela sentia aquela sensação de quem deu a trepada do século. Érica começou a ficar confusa, lembrar dos detalhes. Levantou e pegou uma calça que viu perdida num canto. Escutou um barulho vindo dos quartos. Passou a mão em uma garrafa de alguma coisa que estava pela metade na mesa e saiu sorrateiramente da casa.

Anúncios