Se tudo é política, cultura também é (revolução) [resenha]

Para o dicionário Aurélio arte é: “Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, em geral de caráter estético, mas carregado de vivência íntima e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de os prolongar ou renovar”. Não era exatamente isso que alguns tinham em mente nos anos de 1950 e 1960. Artistas revolucionários e de vanguarda viam na arte algo muito além de uma atividade, mas concordavam no que diz respeito ao renovar. Sob tais olhos arte é uma forma de revolução e entendimento da realidade.

O engajamento cultural dos anos 1960 tem laços bastante fortes com a militância política. Resquício da divisão do mundo entre Estados Unidos e União Soviética no pós-guerra. A revolução industrial no Brasil na década de 1950 também impôs uma nova estrutura social e política duramente questionada pelos movimentos de vanguarda. Existia uma tendência aguda por parte dos movimentos de esquerda à adesão de projetos revolucionários.

“O artista revolucionário popular poderia ser o indivíduo que mora na zona sul , trabalha e ganha dinheiro, tem mãe, mas vê que a favela é logo ali e que na porta do seu edifício dorme um mendigo adulto. Sente-se, então, compelido a renegar sua existência de “burguês de doidera tez” para juntar-se ao povo. Sua opção é moral”. (Impressões de Viagem; Heloisa Buarque de Hollanda, pág. 30)

Era um tempo em que se acreditava na palavra (poesia) como instrumento de revolução. A produção cultural tinha que ser de afronta ao “Novo Estado”. De acordo com o manifesto de fundação dos Centro Populares de Cultura (CPC) a arte deve ser pensada como “arte popular revolucionária”, tendo como público e objetivo o povo. Neste contexto o “Artista Revolucionário Participante” tinha o papel de informar o povo para que este conduzisse o país a uma revolução.

Um pouco antes, no fim da década de 1950, os concretistas também queriam estar ao lado do povo (proletariado), e falar em nome dele. O conceito de povo é redefinido, sendo qualificado como um povo operário, que trabalha na indústria e vive numa sociedade essencialmente urbana e moderna, tendo necessidade de uma nova arte. O artista de vanguarda experimental aparece junto com o movimento concretista. Estes propunham uma arte que ia além da palavra, procurando a construção através da desconstrução.

“O concretismo – segundo o Plano para uma poesia concreta (1958) – pretende então falar a linguagem de um novo tempo. Diante do horizonte técnico da sociedade industrial, dos novos padrões de comunicação não-verbal, da linguagem publicitária, do out-door, do cartaz, o poema deve livrar-se da “alienação metafórica”, para ser projetado como um…objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas. (Impressões de Viagem; Heloisa Buarque de Hollanda, pág. 44)

A idéia era se ajustar as técnicas de comunicação modernas. Então a modernidade passa a ser o centro do discurso poético. Se rejeita a problematização de assuntos de ordem pessoal, como relacionamentos e questões existenciais, na tentativa de racionalizar a arte. O operário é um ser racional, que interpreta mais facilmente a vida de forma racional à alegorias. Desta forma a arte deveria conectar o operário a esta nova realidade e abrir seus olhos para mudanças sociais necessárias (revolução).

Paralelo ao resto

Marginal é uma palavra que não nos remete a algo positivo na maioria dos situações em que é citada. Quando se liga ela ao vocábulo poesia, gerando a expressão Poesia Marginal, ela se torna parte de uma fase mais que importante da literatura brasileira, pertencente aos anos de 1970. Um pouco antes este movimento começava a tomar forma, crescendo com os artistas concretistas do final dos anos de 1950, a vanguarda do anos de 1960 e a Tropícalia.

Nem tudo era cultura naquele tempo, e grande parte deste tudo era política. No Brasil passava-se pelos pesados anos de chumbo da ditadura, que chegou ao extremo com o AI-5 dando base para a perseguição cultural e política. Pelo mundo a situação também era insegura. Tínhamos a Revolução dos Cravos em Portugal e a Guerra Fria. Economicamente todos sentiram a crise do petróleo e temiam pelo coas financeiro. No futebol o Brasil era Tri-Campeão. O Rock’n Roll expressava o sentimento de paz e amor de uma geração. Apesar das tensões quem viveu, e sobreviveu, a juventude naquela época dirá que a década de 1970 foi de longe a melhor período do Séc. XX.

A poesia marginal dos anos de 1970 foi um espaço de resistência cultural à ditadura militar. Os poetas procuravam uma poesia diferente. Como faziam parte de um grupo artístico não institucionalizado eles escreviam uma poesia que era vendida em através de panfletos e revistas editadas de forma independente. Por isso ficaram conhecidos como a “geração mimeografo”. Queriam escrever uma poesia popular, para ser lida e ouvida, pois todo meio de informação era duramente controlado pelo regime ditatorial. Havia neles uma desconfiança com relação ao discurso desse regime político.

“A capitalização crescente do nosso mercado editorial tem significado para os novos autores um fechamento sistemático das possibilidade de publicação e distribuição normais. Na tentativa de superar este bloqueio que os marginaliza tais autores são levados e soluções que por mais engenhosas são sempre limitadas. (…) Lentamente vai se criando em nossos principais centros urbanos uma espécie de circuíto semi-marginal de edição e distribuição, o que é certamente uma resposta política ao conjunto de adversidades reinantes.”

(Citação do texto de Antônio Carlos Brito publicado na revista Argumento, retirado do livro Impressões de Viagem; Heloisa Buarque de Hollanda, pág. 108)

Durante este tempo o mineiro Antônio Carlos de Brito, conhecido como Cacaso, estudou filosofia no Rio de Janeiro e lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Também foi colaborador regular de revistas e jornais, como Opinião e Movimento. Sua primeira publicação como poeta foi em 1967, com A palavra cerzida. Além de poeta Cacaso era letrista, tendo como parceiros grandes nomes como Edu Lobo, Tom Jobim e Toquinho. Já o curitibano (o movimento marginal era realmente nacional, não só do eixo Rio-São Paulo) Paulo Leminski estreou em 1964 com cinco poemas na revista Invenção. Era professor de história e de redação em cursos pré-vestibulares, e também professor de judô. Além de poesia escrevia letras e fazia músicas, tendo colaborado com obras de Caetano Veloso, e era tradutor de escritores como John Fante.

Marginal que ama e faz crítica!

Apesar do pesado clima político Paulo Leminski e Cacaso conseguiam através da Poesia Marginal criticar o sistema político brasileiro e a ditadura. Fazem isso de diversas formas em suas bibliografias, e também nos poemas “E com vocês a modernidade” e “Logia e mitologia” de Cacaso e “en la lucha de clases”, de Paulo Leminski. São três poemas curtos, que não obedecem nenhum tipo de métrica. Ao mesmo tempo são provocativos no que diz respeito ao establishment da época.

Em “E com vocês a modernidade” e “Logia e mitologia”, Cacaso bate de frente com o concretismo, que pregava a modernidade como centro poético e desprezava alegorias. No primeiro há a declaração de um narrador “profundamente romântico”, que conversa com outro romântico, Casimiro de Abreu, que “Em meus oito anos” conclama a nostalgia: “Oh, que saudades tenho / Da aurora da minha vida”. Mas a saudade de Cacaso é diferente. Uma saudade moderna, tétrica. “Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos!”. Ao mesmo tempo que ele remete ao clássico, também evoca todo espírito contestativo de 1970, dando a entender que as coisas não vão bem desde um bom tempo antes.

O mesmo romantismo aparece, não tão explicito, em “Logia e mitologia”. Neste caso a crítica a ditadura militar é mais acentuado que os traços do romantismo. Com trechos como: “sabe que há morcegos de pesadas olheiras / que há cabras malignas que há / cardumes de hienas infiltradas”, Cacaso denuncia os abusos militares. Ele “sabe” que o que acontece em “mil e novecentos e setenta e dois” é diferente do que o DOPS diz, ou autoriza que seja dito. Além disso ele sabe que lá dentro existe sangue e felicidade. No fim ele denuncia o medo que cerca a todos com relação a ditadura militar: “a vida anoitece provisória / centuriões sentinelas / do Oiapoque ao Chuí”. “Logia e mitologia” foi publicado em 1978.

De um outro lado Paulo Leminski evoca a modernidade e a revolução de uma forma típica do concretismo e dos movimentos de vanguarda antecessores em “en la lucha de classes”. A começar pelo primeiro verso, que reconhece a existência de uma luta de classes, além da conhecida batalha contra a ditadura. Luta de classes também é um termo que evoca o “urbano”, que tem papel central no poema. Por terminar com o último verso “poemas”, que coloca a palavra (poesia) como arma de luta contra a repressão do Estado. Muito válido citar que o poema é em espanhol. Visto a situação ditatorial da América Latina naquele momento (1983), este recurso suscita uma união entre um continente que sofre na mão dos países de primeiro mundo. Durante todo este processo, no meio, Leminski legitima a luta armada pela revolução quando diz: “todas las armas son buenas”.

Com um pouco de cautela pode-se dizer que o sistema de produção e distribuição da Literatura Marginal protegeu, de certa forma, artistas como Cacaso e Liminski, que não sofreram nos porões da ditadura ou com o exílio. A cautela pedida no começo do parágrafo se justifica na (minha) falta de pesquisas deste “por que”. O que pode-se se dizer a partir deste pequeno estudo é que a “geração mimeografo” conseguiu driblar todas as dificuldades de seu tempo para se publicar e divulgar. Desta forma se tornou uma voz de resistência quando apenas pensar era um grande risco. No que diz respeito ao desenvolvimento estético e conteúdo foi uma revolução, renovação, reformulação, reconstrução e reforma na literatura brasileira.

Bibliografia

– Hollanda, Heloisa Buarque de; Impressões de Viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960 / 70 – Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004

– Mattoso, Glauco; O que é poesia marginal? – São Paulo: Brasiliense, 1981

– Wikipedia.org (http://pt.wikipedia.org)

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