Fatos Cotidianos 10 – Trabalhando em Telemarketing [conto]

Não suporto mais este lugar. Toda vez que acordo, percebo que o sonho acabou, e lembro deste escritório, estas pessoas, penso em fugir. Sumir do mapa. Pegar tudo que resta no banco e ir para o improvável. Comprar uma passagem para o interior da Bolívia, ou do Peru. Não é tão caro, considerando uma viajem internacional. Preciso só de um pouquinho mais de coragem.

Bem, na falta de tal vou para o trabalho (des)animadamente. Pense em alguém desmotivado, emocionalmente abalado, completamente sem iniciativa com a vida. Conseguiu? Esta longe de retratar meu atual estado mental e físico. É muito pior. Me sinto como uma ameba. Torço para o ônibus atrasar. Que chova e o trânsito pare. Que um carro me atire a dez metros de distância e…

Este prédio fede. Quem fala da beleza dos edifícios da Barão de Itapetininga nunca esteve dentro deles, numa sala comercial de quinze metros quadrados onde trabalham vinte e cinco bastardos. O calor é o menor dos problemas. Meu superior é um incompetente. Nem desconfia de sua capacidade pífia e inferioridade mental. Para se impor humilha todos. Chegamos à conclusão que ele não transpira, ele desidrata.

Se vender filtro por telefone fosse um trabalho digno não haveria tanta gente feia e estranha nesta área, e o salário não seria esta esmola. Há quem diga que isso aqui é uma empresa de telemarketing. Tenho certeza que quem fala isso ainda não conhece este buraco, esta sala suja e úmida. Não viu minha cara de desprezo por esta espelunca.

Tenho uma hora de almoço e meu vale refeição não paga um cachorro quente e um refrigerante vagabundo. Se ficar mais de cinco minutos no banheiro o tempo é descontado no holerite, sem contar que depois da segunda vez no dia começo a pagar integralmente pelas minhas necessidades fisiológicas. Estou definhando. Emagreço a cada dia. Minha cara esta cada vez mais pálida, carrancuda. Meus olhos estão cada vez mais fundos, as olheiras são evidentes.

Todos nós não nos suportamos. É nítido. Nos olhamos através do cubículo que nos une e pensamos um dos outros: “perdedores”. Ficamos todo período de trabalho em silêncio, fingindo que estamos tentando. Passamos o dia nos observando. Analisando a forma que cada um faz o tempo passar. Como se enganam e enganam o resto do mundo. Clamando para ser demitido depois do terceiro mês para ter direito a seguro desemprego.

Ninguém é feliz assim. São ao menos vinte vezes por dia sendo xingado por alguém que não quer saber a importância de se ter um filtro em casa. Porque não é importante! Não é bonito como a família da TV. Seus problemas não estão resolvidos! Quem suporta uma meta de vendas de cinqüenta merdas desta por semana? Por que empresas como esta ainda estão funcionando? É por coisas como estas que se perde a fé na vida, a autoconfiança. Minha auto-estima esta em frangalhos. Meu futuro é sombrio. Vou me apegar numa igreja qualquer e que alguém me guie.

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