Fatos Cotidianos 27 – Nova perspectiva, o pé no chão! [conto]

Fazia um calor insuportável. Joana estava atravessando a Paulista a pé para economizar as moedas do metrô. Quando entrasse no escritório ia dizer que estava passando por problemas pessoais. Seu irmão estava no crack (não ela na cocaína). Três dias sem dar as caras. Na melhor da hispóteses uma demissão por justa causa. Não fazia mais sentido o trabalho de secretária. Com trinta anos não via futuro em continuar tentando isso. Precisava vender só uma tela. Só uma. Para pessoa certa. Não pintava a meses. Tinha uma meia duzia razoáveis dos bons tempos de produção (quando ainda tinha vinte e poucos). Era pouco. Pareceu muito um dia. Entrou no prédio e o ambiente climatizado do hall foi o choque da realidade. A esmola do seguro desemprego mal pagaria as contas.

“Oi Jô. Você esta bem?” “Mais ou menos. As coisas em casa…” “Imagino. Três dias! Dr. Carlos vai falar com você. Não é para você trabalhar.” “Tudo bem.” “Ele falou com a sua mãe ontem.” Joana ficou tão abalada que não respondeu. Em casa ela não aparecia há uma semana. Fudeu tudo em uma semana. O cliente saiu do escritório. Dr. Carlos olhou para a sala de espera, cumprimentou Joana, e fechou a porta. Em instantes o telefone tocou. Márcia atendeu. Não falou nada. Desligou. “Vamos entrar lá Jô.” Ela pegou uma pasta, saiu de trás da mesa e abriu a porta.

Joana estava suando. Márcia entregou a pasta e saiu. Ele esticou a mão na sua direção. “Boa tarde Joana.” “Boa tarde Dr. Carlos.” Ele deu a volta e sentou. “Desculpe pelos últimos dias…” “ Você deve desculpa a sua mãe, não a mim.” “Eu sei, mas…” “Você entende porque vai ser demitida?” “Sim. Não. Por favor. Por justa causa não!” “Não quero te prejudicar. Preciso que assine estes papéis.” Joana começou a rubricar as folhas sem ler, nas linhas que ele apontava o dedo. Depois ele entregou a pasta para ela e a orientou a falar com Dona Marta no RH. “Melhoras para você.” Dr. Carlos estendeu a mão novamente para ela e fechou a porta. Márcia disse que Dona Marta estava a sua espera.

Dona Marta deu para ela quase dois mil. Após assinar mais algumas linhas pegou o elevador e desceu. O mormaço da cidade foi como um gancho bem dado no seu queixo. Joana sentiu o golpe. Sua expressão escancarava isso. Ela voltou a Paulista a pé e desceu a Augusta. Pegou uma lata de cerveja e voltou para Paulista. Quando jogou a latinha fora, perto da Gazeta, percebeu que não sabia para onde ia. Ligou para sua mãe. Disse que estava bem e contou que tinha sido demitida. Estava, estranhamente, calma. Escutou que devia voltar para casa. Argumentou que estava produzindo. Estava morando no ateliê de uma amiga. A mãe chorou. Ela prometeu ligar frequentemente e desligou.

Ficou olhando o monte de ninguém num vai e vem frenético. Pensou nos dois meses de aluguel pagos no bolso. Pegou mais uma lata de um vendedor de rua e foi em direção a Brigadeiro, para o ateliê. No caminho pintou três telas na cabeça e começou pelo menos outra meia duzia. Nada fazia muito sentido. Precisava de contatos. Entrar no círculo. Talvez tivesse deixado uma ou duas boas chances passar. Nunca pareceu muito interessante vender telas no Parque Trianon. Poderia ter conhecido alguém. Muita coisa poderia ter acontecido, mas nada aconteceu. Passou por uma placa de neon que piscava em vermelho: “Massagem”. Entrou por uma passagem lateral e subiu por uma escada até o segundo andar. Parou em frente uma porta onde se lia “ateliê”, abriu, e chegou em casa.

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