Tristessa – Jack Kerouac [resenha]

Lento, descritivo, poético, com pouco dinheiro e com pitadas autobiográficas. Assim são os livros de um dos ícones da geração Beat. Tristessa não é diferente. Ao contrário do que pode parecer para alguns, estas características tornam a leitura mais intensa, aumentam a participação do leitor na história. O que pode parecer entediante nas primeiras páginas torna-se viciante conforme os parágrafos se alongam.

A obra de Kerouac não é apenas a história de uma mexicana dependente de morfina, ou de um homem apaixonado por ela. A rotina do vício, a falta de perspectiva, a indiferença com o mundo, são o retrato de quem optou por um caminho diferente, baseado na filosofia junkie. No fim das 100 páginas se chega à conclusão que não é uma vida fácil e feliz como alguns pensam, e exige tanta coragem quanto ser bombeiro.

Não há nada na vida de Tristessa, e de quem a acompanha, além da morfina. A droga é o começo, meio e fim nas duas partes em que o livro se divide (Trêmulo e casto e Um ano mais tarde). A relação entre os viciados aponta para uma dependência além da química, a afetiva. El Índio e Bull, assim como Kerouac, dependem do convívio entre si e Tristessa tanto quanto de remédios, drogas ou álcool.

Apesar da imensidão da Cidade do México tudo se passa em subúrbios típicos de terceiro mundo: violência, miséria e drogas. Bares sujos, ruas sujas, casas sujas, quartos sujos, camas sujas. Nada disso importa diante de uma paixão platônica, que é recíproca. Muitas coisas impedem a união entre o narrador de sua adorável protagonista, mas o principal motivo parece ser que o amor nunca vai ser mais importante que a droga.

Chama a atenção como cada personagem lida com o fato de ser viciado. Não há drama tão pouco arrependimento. Existe sim uma busca incessante, e condenada ao fracasso, de conviver com ele sem que isso afete outras coisas da vida, como o trabalho ou relações familiares. No mínimo um ponto de vista interessante, exposto pelo próprio autor: “Tristessa é uma viciada e lida com isso magra e despreocupada, enquanto uma americana seria melancólica”.

Uma pitada de emoção a mais, no que se refere às partes biográficas, e saber que um dos parceiros de Kereuac na Cidade do México é Allan Ginsberg. Assim como em seu maior clássico, On The Road – Pé na Estrada, o escritor mostra que não é necessário muito para ser feliz, mas é preciso bem pouco para tornar os dias angustiantes e arrastados.

Trechos da Obra

– “A seringa de El Índio esta totalmente cheia. Ele enfia a agulha com força e ela esta cega e não penetra na pele e ele a enfia com força e consegue, mas em vez de estremecer aguarda boquiaberto e em êxtase e aplica tudo, deprimido, parado”.

– “Eu lamento tanto em cima da xícara com a bebida que eles percebem que eu vou ficar bêbado e então permitem e insistem que eu tome um pico de morfina, o que aceito sem medo porque sou um bêbado – pior sensação do mundo, tomar morfina quando você está bêbado. O resultado da um nó em sua testa como se fosse uma pedra e provoca muita dor lá enquanto disputam o domínio da área, nenhum deles ganha porque anulam um ao outro, o álcool e o alcalóide”.

– “Homens e mulheres cometem errores – erros, falhas, pecados, faltas,” seres humanos semeiam com problemas sua própria terra, e tropeçam nas pedras de sua imaginação falsa e errada, e a vida é dura”.

– “Se tiver que escolher entre a Grace Kelly e a morfina, fico com a morfina”.

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