Gomorra – Roberto Saviano [resenha]

Estupefato. Assim ficou Roberto Saviano diante do poder da Camorra. Tudo que ele podia fazer para tentar mudar a realidade de Nápoles e sua redondeza era escrever um livro contando tudo que viu, e foi o que ele fez. São 349 páginas de angustia, e sensação de impotência diante de uma organização criminosa bem estruturada, e aceita pela sociedade.

Gomorra não é um romance sobre a máfia. Não tenta ser bonito nem suave. Não se concentra em disputas entre famílias, clãs ou coisas do gênero. Gomorra mostra como a máfia napolitana esta presente na sua, na minha, e na vida de qualquer um que consuma qualquer produto. Abismado, Saviano constata que a flexibilidade do Sistema o torna infalível, indestrutível.

Seu relato não poupa nomes, lugares e descreve com lucidez os fatos. Tamanha franqueza lhe condenou a viver o resto da vida sob escolta policial. Para entender todos os mecanismos de lucro da máfia foi preciso explicar que existem muitas outras formas ilegais de ganhar dinheiro além do tráfico de drogas e armas. A extorsão também é apenas mais uma maneira de enriquecimento ilícito e covarde.

Logo no primeiro capítulo da Primeira Parte, O Porto, o jornalista mergulha na obscura industria da moda italiana. Suas palavras retratam seu espanto diante dos acontecimentos a sua volta, tanto que em alguns pontos ele chega a ser insistente: “Nesta zona, desde os anos de 1950, não há necessidade de ser ter alvará, contratos, local adequado. Garagens, vãos de escadas, salinhas transformam-se em fábricas”.

Manter o controle sobre mercadorias, transporte, lojas, entre outros investimentos dos criminosos gera violência e medo. Em capítulos como A Guerra do Secondigliano e Dom Peppino Diana o repórter narra como a vida vale pouco naquela região da Itália. Não é lenda. O simples aperto de mão com a pessoa errada pode custar à vida de uma família inteira. Os olhos dos boss estão em todo lugar.

Também mereceu uma atenção especial do autor a forma como a Camorra administra a industria da construção civil e do lixo nos quatro cantos do mundo. Sua descrição de como estes dois mercados são explorados, principalmente, em Nápoles e as cidades que a cercam lhe deu o titulo de persona non grata em toda região.

Concluí-se que muitos outros jornalistas já escreveram ótimos livros sobre o assunto, podendo ser citado Abusado, de Caco Barcellos, mas poucos conseguiram mostrar com tanta clareza e espanto como o crime organizado, máfia, quadrilha, clã, como queira, esta presente na vida de todos nós.

Trechos da obra

– “Os produtos tem cidadanias múltiplas, híbridas e bastardas”.

– “Quando alguém morre, nada revela senão medo. Todos ou quase todos repetem a mesma frase, banal, simples, imediata: “Não quero morrer”.

– “Quando se morre nos canteiros, coloca-se em movimento um mecanismo concatenado. O corpo inerte é retirado do local e simulam um acidente na estrada. Colocam o corpo num automóvel e depois o atiram numa ribanceira ou buraco, não se esquecendo de incendiá-lo antes. A soma que o seguro pagará será dada à família como acerto rescisório”.

– “Entulhar de detritos tóxicos um território, cercar as próprias cidades de montanhas de lixo, pode ser um problema somente para quem tem uma perspectiva de poder a longo prazo e responsabilidade social”.

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