Paraíso na Fumaça – Chris Simunek [resenha]

Quando alguém pega um livro e se depara com um baseado na capa, seguido do título Paraíso na Fumaça, existe uma probabilidade razoável de se pensar em apologia as drogas. Passa longe disso. O jornalista da mundialmente conhecida revista estadunidense dos maconheiros, High Times, se preocupou apenas em relatar suas experiências, que passam do alucinógenas a tensas, durante seus anos de trabalho.

Num tradicional “livro reportagem”, o repórter aproveitou de suas viagens pelo mundo, a trabalho e diversão, para mostrar como a contracultura se desenvolve ao redor do planeta, e embaixo do nariz do Tio Sam. São pontos de vistas frios e irônicos. Seu texto simples pode ser comparado a autoridades como Charles Bukowski ou Irvine Welsh. Palavras rasgadas, como se estivessem sido ditas, e não escritas.

De um frustrado show de sexo ao vivo na Alemanha, a uma desastrosa cobertura da turnê do Sex Pistols, Simunek não faz questão de esconder seus sentimentos com relação a todas as situações que passa e, de relatar precisamente seus mais estranhas experiências pessoais. Isso fica evidente logo nas primeiras linhas quando ele desabafa: “Este é o lugar mais mala dessa porra desse mundo”.

Mas do seu ponto de vista trabalhar também foi descobrir um mundo novo, e maravilho. Não é difícil imaginar os olhos do autor brilhando quando visitava plantações de cannabis. Pode ser citado como surpreendente a forma que ele retrata a relação, quase de amor, dos produtores pelas suas plantas, além do próprio sentimento. “Ao ver a plantação, senti o mesmo que deve ter sentido Benja,im Franklin quando um raio percorreu a linha de sua pipa e iluminou suas bolas como enfeites de natal”.

Viagens para Jamaica, com direito a uma participação singular num evento Rasta, e Cancun, além das aventuras mais inusitadas em lugares como o encontro de motociclistas de Sturgis e da Rainbow Family, fizeram parte de uma carreira ímpar. A impressão que se tem é que nunca foi chato escrever para uma revista com uma linha editorial tão polêmica.

Para acadêmicos da área de comunicação é um bom exemplo de como o jornalismo por ir além dos fatos e opiniões, e transmitir um pouco de humanidade, mas não num sentido de piedade, e sim transportar o leitor para o mundo que ele esta lendo. Muitos podem se referir a isso como jornalismo “gonzo”, mas também poderia ser descrito como bom jornalismo.

Trechos da obra:

– “Até os garotinhos caretas de Kent usam camisetas do Marilyn Manson. Mas isso é um avanço. Quando pessoas assim começam a posar como os caras cujos cortes de cabelo seus irmãos mais velhos ridicularizavam em cujos armários escolares eles mijavam, eu digo que é hora de pegar em armas”.

– “Às vezes você tem que criar sua própria aventura. Qual o problema em perseguir a glória se jogando em situações potencialmente suicidas e provar a si mesmo e ao mundo que você pode se dar bem só na coragem e no instinto?”

– “Cada parte da minha psique tinha uma opinião diferente do que tava rolando. O coração estava encantado com ela, a alma dizia que a garota era jovem demais e, se estivesse interessada em mim, era porque provavelmente era louca; o pau dizia que o que quer que acontecesse não seria culpa minha se eu não tomasse a iniciativa; e o cérebro falava baixinho “ai cuzão, sabe o quanto dói ser coberto de porrada por vários membros duma notória gangue de motoqueiros?”

– “Das vezes que eu tentei usar a droga pra outra coisa – escrever, foder, pensar, dirigir – deu errado em oito de cada dez vezes, e me liguei que pra manter essa média, não precisava de ajuda”.

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