Sobre meu amigo freak [conto]

O simples fato de sair de casa o entediava. Na verdade, ficar ou sair era indiferente. Talvez ele tivesse mais preocupado em escrever coisas que talvez ninguém nunca fosse ler a viver. Ou não. Apenas achava tudo aquilo um saco e queria fazer qualquer outra coisa. Todos sabiam que ele não suportava gente bêbada. Às vezes parecia que não gostava de nada nem ninguém.

Quando bebia falava coisas meio desconexas. Elogiava o horror e a guerra. Criticava a paz e amor. Pensando bem, acho que isso acontecia porque ele jamais conseguiria amar ou existir em paz. Ou era pura influência de Orwell. Não tinha o menor sentido no seu ponto de vista. Quem realmente queria paz e amor?

Quem realmente fazia alguma coisa por paz e amor? Quem não desistia de lutar pela paz e amor antes dos 30? Para que viver tudo aquilo com vinte e poucos anos e depois ter mulher, filhos, carro e casa em longas prestações? Perfume e desodorante da moda, fazer faxina aos domingos, ir ao parque fazer piquenique em família e pedir pizza à noite. Quais eram suas opções se já parecia tudo decidido?

Era assim que jogava. Se não tomasse as mesmas atitudes, não acabaria igual. Não sentiria a dor de chegar aos 50 falido e com uma prole desmiolada. Não se sentiria humilhado e derrotado toda vez que se olhasse no espelho. Seria solitário como sempre fora. Não teria que chorar por um passado que nunca mais voltaria.

Mesmo assim tinha um terrível medo da morte. Achava mais fácil acreditar que algo aconteceria antes disso, e que veria o fim de tudo e todos. Na verdade o medo da morte era medo da dúvida. Como ficariam todos? Como os fatos se desdobrariam? E se dormisse e nunca soubesse? Jamais aceitou que alguém realmente acreditasse no fim da consciência. Se sim, esta coisa não poderia ser humana.

Realmente não considerava a hipótese de estar errado. Era tudo tão claro e transparente. Era só enxergar o mundo a olho nu. Não tinha segredos. Qualquer outra consideração não teria sentido. Quem não acreditaria que a humanidade caminha para seu fim a passos largos? Em que alguém se baseava para falar que não aconteceria enquanto estivesse vivo? No que poderia contribuir para que fosse menos doloroso?

Mas não tinha coragem o suficiente para expressar tudo isso se não tivesse tomado algumas doses de whiskey ou vodka. Por isso não bebia, para não ter que se lembrar de tudo isso. Para não ter que falar tudo isso. Apesar de não ter vergonha de suas convicções, estava longe de ter orgulho. Mais uma vez tinha medo. Ao mesmo tempo em que queria, não podia esconder o que sentia.

Embora não fosse diferente, nem igual. Embora não odiasse, nem amasse. Embora não fizesse questão de fazer algo para mudar o rumo das coisas, ainda que sabendo de seu fracasso. Mesmo não sendo feliz, nem triste. Embora quisesse, sem querer. Mesmo que sorrisse sem mover os lábios. Mesmo que admirasse, sendo indiferente. Lembrava-se, sempre que deitava a cabeça no travesseiro, com um certo pesar, que o fim se aproximava a cada gesto, a cada pensamento, a cada novo despertar do sol.

Agora posso perceber. O mundo precisa de pessoas como eu e meu amigo freak. De pessoas que acreditam, e de pessoas que não acreditam. De gente que chora, e gente que não chora. De mulheres, e homens. Solitários e acompanhados, pais e filhos. Do bem e do mal.

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