Fatos Cotidianos 2 [conto]

Pobre rapaz. Não foi fácil. Nasceu prematuro de sete meses. A mãe morreu no parto. A vida não fazia mais sentido pro pai, que mal lembrou dele, quando ele ficou três semanas na incubadora. Depois disso foi morar com a avó materna. Nem o cachorro agüentou as seguidas bebedeiras do recém viuvo.

Com cinco anos teve cachumba. Nem tinha noção do que isso significava. Não imaginava que poderia ficar a vida inteira sem trepar por isso. Sua avó foi importantíssima nesse momento. Tinha consciência disso e evitou que o pior acontecesse. Quando tinha sete anos o avô morreu. Mas deixou dívidas. Não devia se lembrar daqueles duros dias. A aposentadoria da vó era insuficiente. Longos dias comendo arroz, feijão e ovo.

Com treze anos foi estudar na escola em que a já cansada avó trabalhava como faxineira. Os anos de convivência com aquela gente mais rica não fez muito bem pra ele. Se acostumou a ir a festas dos bacanas. Roupas finas. Bebidas finas. Drogas finas. Com dezesseis anos foi expulso depois de ser pego vendendo maconha no banheiro da escola. Em quase um ano no ramo já tinha mais dinheiro do que a vó tinha juntado nos últimos quinze.

Chegou na escola pública com pinta de playboy malandro. Descobriu da pior forma que era impossível ser os dois. Apanhou dos playboys e dos malandros. Os negócios acabaram e o dinheiro também. O jeito foi arrumar um trabalho. Office boy no escritório de um advogado na Avenida Paulista. O centro financeiro do país. Onde os bancos têm grandes filas o dia inteiro. Foi horrível para ele. Ficava-se mais nos bancos que no escritório. Quando o negócio se expandiu foi criado um departamento para cuidar dos boys da empresa. Aos vinte anos sentiu pela primeira (e única) vez a sensação de ser promovido, se tornando chefe de departamento.

Então ele resolveu reunir o útil ao agradável. Reatou algumas velhas amizades e começou a vender maconha aos caixas dos bancos. A garotada levava junto com os malotes. No começo ele não sabia o quanto os bancários eram maconheiros. O negócio se expandiu. Com o passar do tempo se saia mais para entregar maconha do que malotes. Mas ele não sabia quão pequeno era o mundo.

A maconha dele ficou famosa entre os bancários pela qualidade. Pessoas importantes nos bancos eram seus clientes, e ele mal sabia. E uma delas conhecia seu chefe, que também curtia dar um tapa na macaca. Resultado: reação em cadeia. O advogado moralista e maconheiro quis saber da onde vinha aquela maravilha verde. Uma semana depois fechou o departamento dos boys. Lá estava ele de novo desempregado, e impedido pelo seu ex-patrão de exercer sua atividade paralela. Chantagista, não queria ser nem cliente.

Sua avó, coitada, mal sabia da vida do neto. Os anos foram cruéis com ela. Não trabalhava mais. Ficava o dia inteiro como um zumbi na frente da tv. Não falava. Não comia. Não vivia. Ele descobriu ela morta no quarto por causa do cheiro. Chamou o serviço funerário da prefeitura e enterrou a velha numa vala no cemitério da Lapa. Talvez, se ele lembrasse da história da caxumba tivesse a tratado mais humanamente. Mas…

Com vinte e cinco anos foi atropelado por um ônibus. Foram três meses em coma no Hospital das Clínicas, até que ele acordou tetraplégico. Foram meses de angustia e depressão. Não tinha ninguém para cuidar dele. Não era possível viver sozinho daquele jeito. O dinheiro…obviamente ele não tinha nenhum. Recebia um salário mínimo por ser invalido. Belo prêmio de consolação. Um dia estava voltando da fisioterapia no HC quando um cara empurrou acidentalmente sua cadeira na linha do metro. Ele não morreu imediatamente. Mas os funcionários da SSO não conseguiram evitar a passagem do trem.

Pobre rapaz, teve uma morte tão estúpida quanto sua própria vida.

Anúncios