Fragmentos de pensamentos lisérgicos em madrugadas intermináveis [fluxo de consciência]

Todo trabalhador operário tem que pegar ônibus. E nós somos a maioria. Então quando chega o horário de pico, entre seis e nove da manhã e cinco e oito da tarde, os coletivos mais parecem latas de sardinha. É mais uma daquelas humilhações que se passa diariamente, que se incluem na rotina de todo trabalhador honesto e pacifico.

É o mesmo sistema de transporte que os coronéis usavam para transportar seus escravos (isso depende do ponto de vista, para os coronéis eles eram trabalhadores operários, para nós eles eram pobres seres humanos esperando a ajuda de algum Deus, para o governo eram escravos, e não sei o que eles pensavam sobre eles mesmos). Todos amontoados naquela tremenda caixa gigante que se move sozinha, sendo levados para o abate ou voltando já abatidos.

A diversidade de espécies dentro de um ônibus é maior que a fauna e flora da Amazônia. Tem aquele cara que trabalha na construção civil, que fede uma mistura de suvaco com cimento. Dependendo da situação compensa deixar ele sentar no seu lugar a ficar com aquele cesse fedorento na sua cara enquanto ele segura o corrimão.

Tem as gordas também, que sempre ocupam dois terços do banco com aquelas bundas gigantes, ai não sobra espaço para sua. Então você fica espremido na janela ou com uma das suas nádegas fora do banco.

Lembrando também daquelas vezes em que o bumba ta abarrotado, o motorista esta dirigindo como se estivesse carregando porco, e por um motivo qualquer você esta sentado. Ai chega um idoso, e a tiazinha quarentona que esta sentada no banco preferencial não meche a bunda, finge que não vê. Ai você, como ser humano honesto e pacifico, levanta e dá lugar para a nobre senhora.

Faço questão de citar que minha crítica é dirigida à quarentona sacana, que não trabalhou o dia inteiro, esteve no bar ou no cinema, não esta cansada nem estressada, não move uma palha, e eu tenho que ir espremido entre aquela grande massa de carne humana enquanto ela vai sentada, de pernas cruzadas como se estivesse numa limusine.

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De uma forma ou de outra todos nós compreendemos que vamos morrer. Que uma merda, tipo ser atropelado por um ônibus, pode acontecer a qualquer momento, e deixar seqüelas irreparáveis. Uma outra grande bosta que estamos suscetíveis é sermos assaltados, seqüestrados, presos ou extorquidos por polícias.

Bem, isso esta inserido na rotina da maioria. Inevitável. Em um segundo tudo pode mudar. Mas isso não permeia nossos pensamentos a todo o momento. Quando estamos trabalhando, ou transando, isso não passa pela nossa cabeça, mas o risco de acontecer existe.

Este risco se eleva de acordo com nossas atitudes. Por exemplo, se atravessamos uma rodovia muito movimentada estamos aumentando as chances de morrer atropelado, e se entramos em uma favela para buscar maconha estamos turbinando as possibilidades de ser preso, assaltado, extorquido, assassinado…

Durante o momento em que as chances de dar uma merda são de 90%, muita coisa passa pela cachola. Bolamos planos infalíveis, coisas mirabolantes, para resolver qualquer enrascada que apareça. Mas no fundo sabemos que se algo acontecer é por que não tem mais como ser evitado, que as conseqüências desastrosas, de ante mão previstas, estão por vir.

Depois de findada a situação, e de tudo ter acabado bem, sentamos no sofá de casa e pensamos: “Ufa! Ainda bem que estou aqui”.

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