Prólogo – Da série Rebeldinho Egocêntrico [crônica]

É estranho quando chega o fim do dia e você não se lembra do que estava sentindo quando acordou. De repente você acende um cigarro e parece que o dia começou ali. Você não lembra de como foi escutar o barulho de despertador e abrir o olho. Não sabe se escovou o dente ou não. Não se recorda do porque escolheu aquela roupa. Da cara das pessoas no ponto de ônibus. Não se lembra de estar vivo nas últimas horas.

As coisas são meio irreal. Nada acontece, o tempo só passa. Uma força maior, a maldita rotina, é quem dita o rumo dos fatos. Não sei porque fiz aquilo. O que falei para alguém ontem? São coisas sem importância que aconteceram apenas para que a grande bola continuasse a girar.

Por que alguém lê uma revista? Por que alguém estuda? Por que alguém inventa uma coisa como carrinho de brinquedo ou boneca? Qual a necessidade de se acumular conhecimento? E dinheiro?

Enfim, por vários motivos chegamos ao ponto que estamos hoje. Eu poderia estar na beira da praia, com uma tanga de palha, fazendo sexo selvagem, assando um peixe, fumando alguma coisa. Mas não. Estou estressado. Na frente do meu computador. Pensando em trabalhar, pagar as contas, preocupado com um monte de detalhes da vida rotineira.

Se soubessem o que eu penso, e gostaria que soubessem, não teria amigos. Minha família não ficaria ao meu lado. Iriam me matar se soubessem minhas opiniões sobre suas vidas. Eu me mataria se tivesse coragem.

Em geral, ricos ou pobres, somos todos corruptos. Todos somos cretinos o suficiente para aceitar um suborno, por mais irrisório que ele seja. Aceitaríamos fazer algo antiético para não perder o emprego, apenas cumprir a ordem. Somos sujos, traidores, mentirosos, mesquinhos, fúteis. Não temos o que precisamos e não precisamos do que temos.

Na verdade temos medo que alguém descubra isso, apesar de sabermos que todos somos iguais. A verdade ofende.

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