O que vai mudar depois dos 50? [crônica]

Para espanto de alguns, a vida depois dos 50 não é nem melhor nem pior do que antes, é quase igual. Para que os mais inexperientes entendam, é como fazer 18 anos. Não muda nada, no outro dia tem aula, e no caso dos 50, é dia de trabalho normal. As mudanças se dão na forma como as pessoas te tratam depois destas datas tão festejadas.

 

 

Quando se completa a maioridade a responsabilidade é o principal item de discussão em torno do ex-adolescente. Do dia para noite ele se tornou um homem e precisa de um emprego, uma namorada, entrar na faculdade…as tias começam com os mesmos discursos: “Agora o tempo voa meu filho, quando você for ver já vai estar nos trinta”, como se estas coisas não fossem preocupações dele até ‘ontem’.

 

 

Mas o tempo urge, e os ‘entas’ chegaram. Ai é a vez dos pais, do sogro e da sogra, e a filha deles, começarem a falar: “Você precisa se preocupar com a sua saúde”. Até ontem ela estava boa, mas hoje a idade pesou, e se você ainda não esta com bursite, úlcera ou arteriosclerose você tem muita sorte. No caso dos homens, as esposas parecem ter prazer em ligar e falar: “Marquei um exame de próstata para você a semana que vem”. E claro que a super sogra faz questão de perguntar no almoço de domingo, na casa dela com boa parte da família reunida, como foi à consulta. Se me acontecer isso um dia já tenho a resposta na ponta da língua: “Foi ótima, vou me separar esta semana e juntar meus trapos com o médico”. Nada contra o exame de toque, ele é necessário e já me conformei que vou ter que passar por isso, o problema é como algumas sogras e esposas vêem isso.

 

 

Os tradicionais check ups anuais também se tornam algo fora do normal. O clima muda na casa. Estão todos apreensivos com o resultado. Às vezes parece que todo mundo sabe que você esta com uma doença incurável, em estado terminal, menos você. Sugeri para um médico amigo meu que no final da folha ele deveria escrever quanto tempo de vida ainda resta para o cidadão.

 

 

As sandices não param por ai. Basta cair algo no chão que alguém fala: “Deixa que eu pego”. Como se a coluna não agüentasse mais fazer tal movimento, sem falar nos tradicionais “você esta velho demais para isso” ou “você já passou da idade de fazer estas coisas, pode ser perigoso”, como por exemplo, jogar futebol no domingo. A única coisa que me parece perigosa neste caso é eu dar um baile na mulecada e ficar arrependido de não ter tentado ser profissional.

 

 

Tudo isso é aceitável, a gente leva na brincadeira, e é legal saber que as pessoas se preocupam. Mas existe uma situação que é inaceitável. Você chegou em casa com as compras. Sua mulher e seus filhos saem na garagem para te ajudar a tirar tudo do carro. Ai você escuta ela falar para o Junior: “Pega o saco de arroz que é muito pesado para o seu pai carregar”. Socorro! Me tornei um inválido, um fraco, alguém que precisa de ajuda externa para viver, não sou mais independente? Se tivesse força levantaria o carro para provar o contrário. O que me consola é que o Junior também não tem força para levantar o carro.

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