Pós-morte e sentença de Reginaldo [conto]

“Putz, acho que me livrei dessa.”

 

 

“Não se livrou.”

 

 

“Hã? Quem é você?”

 

 

“Quem eu parece ser?”

 

 

“O Diabo!”

 

 

“Bingo! Como bônus você vai ganhar uma tatuagem.”

 

 

“Tira este tridente da minha bunda porra!”

 

 

“Viu como não doeu? E não se faça de machão. Sei muito bem o que acontecia entre você e seu vizinho, o Marreta. Por que mesmo chamavam ele de Marreta?”

 

 

“O que você esta pensando? Ninguém me chama de veado e sai em pune não. Tenho meus direitos como alma. Quero ser julgado. Só Jesus pode me condenar. Minha mãe lia a bíblia para mim, sei dos meus direitos.”

 

 

“Tenho o enorme prazer de lhe informar que você já foi julgado. Para falar a verdade, seu caso nem chegou a o que você se refere como Jesus. Santo Antonio foi sábio o suficiente para ver que você não tinha salvação. Tive uma vitória fácil.”

 

 

“Não pode ser. Quero recorrer. Vou até a última instância divina. Sou uma vítima de um mundo tomado pelo caos.”

 

 

“Hahahaha. Você até que aceitou bem a morte. Mas ainda não entendeu como funciona. Tudo bem, você vai se acostumar. Quanto a recorrer, impossível.”

 

 

“Deus, eu imploro por seu perdão. Estou arrependido de tudo que fiz. Por favor, dei me pelo menos a chance de me defender.”

 

 

“Lembra do Samuca? Aquele que você mandou direto para o céu depois que ele disse a todos que você bebia para agüentar as ‘Marretadas’? E aquele golpe que você aplicou numa velha senhora para receber sua aposentadoria? Mas o que mais chocou a todos presentes no julgamento foi você espancando sua mulher por que ela não conseguia fazer seu filho parar de chorar. Você estava bem convicto nas suas palavras: ‘VOU MANDAR VOCÊ E ESTA CRIANÇA PARA O INFERNO SUA MALDITA’. Que situação hen?”

 

 

“Deus é misericordioso. Não vai me abandonar. Eu também fiz o bem. Por que ninguém falou que eu tentei socorrer minha vizinha quando ela paria sozinha no meio da rua?”

 

 

“Talvez seja por que você parou no caminho para tomar um birita e fumar um cigarro e ela e as crianças, eram gemias, morreram.”

 

 

“Eu preciso de outra oportunidade. Quero voltar. Corrigir meus erros.”

 

 

“Não dá. Você se lembra que tentou atravessar o trilho do trem depois de tentar roubar a bolsa de uma menina? Tem pedaço seu para todo lado, não tem como juntar. Tudo bem. Não vai ter velório, você vai ser enterrado como indigente.”

 

 

“Cadê a justiça divina. Por favor, olhe por mim Senhor.”

 

 

“Pare com esta ladainha. A justiça aqui esta representada por mim. Vamos que não tenho tempo a perder. Você devia se sentir honrado pelo Diabo, em entidade, vir te buscar. Levanta este joelho, que você nem tem mais, deste chão. Não posso te mandar para o inferno assim, preciso amaciá-lo. Você esta muito calmo, vai ter que passar pela fase de ‘apavoramento’.”

 

 

“Como assim? Eu não vou com você. Vou ficar em volta destes trilhos eternamente. Posso te ajudar. Vou assombrar esta estação. Derrubo quantas pessoas você quiser nos trilhos. Podemos trabalhar juntos. Não preciso ir para o inferno.”

 

 

“Você é muito abusado. Sua fase de ‘apavoramento’ começará a partir de agora. Como Senhor Supremo do Inferno, eu condeno você a um milhão de dias iguais ao último que você viveu em vida. Pela sua tentativa de corromper o Diabo está condenado a lembrar de tudo com o passar dos dias. Independente do que faça, vai acabar no trilho do trem. A expectativa é que você enlouqueça antes da primeira centena. Não desejo-lhe sorte e o aguardo no final de sua sentença.”

 

 

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“Acorda Reginaldo. Vá curar esta ressaca e procurar um emprego.”

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