Escritor Falido [conto]

 

Tem uma coisa muito errada acontecendo. Não da para apontar o que é. É uma coisa tão óbvia que chega a ser absurdo.

 

 

A semana passa um procurador de justiça esteve em casa. Ele aceitava qualquer coisa para abater minha dívida. Levou meu computador o safado. Eu tenho uma dívida de cinqüenta mil com um banco mercenário. Eles pegam um objeto que não vale mil. O pior é que sem ele eu não vou conseguir trabalhar para ganhar os quarenta e nove e pouco que vão faltar.

 

 

Pois bem. Descolei uma máquina de escrever. É mais lento, mais trabalhoso e mais chato. Mas pelo menos era uma esperança. Um dia o “F” emperrou. Joguei óleo, tentei puxar delicadamente, fiz de tudo. E nada do mecanismo cumprir corretamente o final de seu processo.

 

 

Apelei para um alicate. Grande erro. Quebrei a letra “F”. Foram longos seis meses com aquela geringonça que não tinha a letra “F”. Tinha que deixar um espaço e preencher a mão depois. O pior era na digitação. Era impressionante, toda vez que tinha que enfiar o dedo indicador esquerdo no espaço vazio. A digitação se torna algo automático com um tempo. Como vou enfiar no meu cérebro que o teclado que estou batendo não tem a letra “F”?

 

 

Depois de longo semestre nesta (e da ajuda de editores que ainda aceitavam trabalhos datilografados a máquina), consegui esconder dinheiro do fisco e do banco para comprar um computador por R$ 300,00.

 

 

Imagine a maravilha que era. Contei uma vez. Para abri o Windows, eu entrar no Word, escrever meu nome, salvar o arquivo, fechar o Word, e desligar o computador, levava vinte minutos.

 

 

Costumava dizer aos meus amigos que meu computador era ‘monosoft’. Ele só conseguia fazer uma coisa por vez. Se estava com o Explorer aberto, não dava para abrir o Word. Se o MSN estivesse on-line, nada de escutar música.

 

 

Aprendi que a gente cresce na diversidade. Pude comprovar isso com o passar dos tempos. Dormir no chão me dava dor nas costas, mas me adaptei depois de uns meses. Acostumei meu organismo a receber alimentos apenas uma vez por dia. Minha paciência com o computador é digna de beatificação. Tudo isso foi uma evolução que evitou sofrimento desnecessário.

 

 

Definitivamente não consigo entender. Não pode ser, que um ser pacifico e honesto como eu, que se manteve intacto as inúmeras tentativas de corrupção da sociedade, pode estar passando por isso. Até onde isto vai?

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